Fiquei feliz que a popularidade do blog aumentou (ainda que de maneira parca) e, ao vasculhar os posts de maior popularidade, ganha de longe justamente aquele que eu fiz meu testamento. Portanto agradeço demais a todos aqueles que lêem, querem meu bem e meus bens.
Hoje, num lapso de objetividade, me fiz à vontade para falar de duas coisas que são tão importantes quanto incomodam: o ócio e a família. Qual a relação entre um e outro? Não sei, mas desconfio que a sedentarização seja a chave destes fenômenos que tanto criam quanto letargem.
Parte 1
Família é um conceito (quase uma virtude, no seu sentido mais eclesiástico) que vem me rondando e atordoando. Serei honesto e franco como ao abrir a porta da minha casa, pois minha família é o mais especializado laboratório da América Latina neste assunto. Mas por favor, vocês que conhecem os personagens, não levem para o pessoal, é só uma ilustração.
Bom, eu sou sagitariano e esse pacote inclui um senso de independência e aventura irrestrito, assim como abstrair-se e distrair-se inevitavelmente (lembrando que algumas vezes o fenômeno pode ocorrer sem algum senso de perigo). Por mostrar-se sempre sólido, naturalmente as pessoas começam a desfrutar desta impassividade tão divina, realmente acreditando que eu não guardo rancor ou somatizo qualquer tipo de problema ou destrato.
OK, com essa última frase dava pra começar a escrever o roteiro do “A Cor Púrpura”. E aí vem outro problema: realmente, sempre acreditei que não vale a pena demonstrar-se só ou com problema, mesmo porque odeio criança mimada. Então vivo, escrevo, e principalmente, penso, penso e penso e a resposta não vem.
A resposta não vem e as coisas vão perdendo o seu significado: a paisagem é inútil, o amor é ilusão, seus amigos parecem mais velhos. E por que viver numa instituição católica chamada família se ninguém mais vive seus papéis nessa estrutura?
Essa questão, embora não pareça tão vigente, permeia a nossa sociedade de uma maneira extrema: Alexandre Nardoni matou sua filha e jogou pela janela, o menino do ônibus 174, sem pais, seqüestrou um ônibus e deixou sua tia órfã de um filho, a menina Eloá estava com o pai na cadeia e foi morta pelo seu namorado, vitimada com 15 anos.
Aí tem aquela velhinha que tem uma família maravilhosa com filhos trabalhadores e adora ver sangue no Datena, que se pergunta: “Onde vai parar esse mundo, meu Deus?”. Então vá para Marte, minha cara. E repara que seu neto, embora não tenha seqüestrado ninguém, mantém sua mulher refém de um amor falido.
Embora ninguém na minha família tenha morrido, e meus pais se amem, numa conversa informal na cozinha, enquanto a mãe preparava a janta, joguei:
“Esse não é o modelo de família que eu queria”. A janta parou, minha mãe começou a chorar, meu pai começou a falar sem muita paciência para ouvir, palavras sábias, embora um pouco repetitivas. Eu não queria colocar a nossa sociedade em cima da mesa em discussão, mas realmente era preciso falar antes que entrássemos em um calabouço de amor falido.
Parte 2
Minha ansiedade é enorme em descobrir porque as coisas se desenrolam dessa maneira. E, embora saiba que não há resposta, acabo corroendo-me com as conclusões.
Voltei à São Carlos na sexta após uma incursão de tristeza que durou quase uma semana (e quase minha vida eu diria). Nem mais eu sabia porque estava triste e me sentia sobretudo incapaz, mas de repente a dor se fez em pausa para reflexão. E nada como transformar a torrente oral da cabeça em palavras escritas, um código muito mais organizado, para debater algo que parece que realmente ninguém quer ouvir, ou talvez eu acabe me envaidecendo ao falar.
Saí para andar e ver, fluir. Eu precisava dialogar um pouco com a paisagem que eu já conhecia, e que me conta tanta história.
Minha família sempre foi muito feliz, embora não tivesse dinheiro. Chavão clássico de novela, mas conseguimos as coisas cada um a base de seu esforço, banhados por uma cidade que sempre nos deu a simples oportunidade de viver. Simples, mas não é pouco: baixa violência, oportunidade de encontrar sempre os amigos, boa educação, acesso à arte. Tudo isso foi naturalmente incorporado por nosso modo de viver.
A estrutura era clássica: meu pai trabalhava fora, minha mãe com ponto fixo de comércio, minha irmã com o quarto e as coisas dela. Meu tio morou com a gente e se encaixava muito bem. Saudosismo? Não, nunca. Só quero exemplificar, sem entrar em detalhes sentimentais, de que tínhamos uma base sólida dentro do que se chama família. Tínhamos bons horários de convívio, precisávamos vencer pequenas distâncias para os locais de interesse, facilmente caminháveis. Acho que esse exemplo permeia quase toda família sancarlense, ou do interior.
O que andei reparando quando andei hoje de manhã era na dispersão das pessoas: a loja de sebo tocando rock velho, o dono do antiquário lendo um livro com seu irmão. Um cidadão sentado na mesa do bar, sei lá que horas, olhando sei lá pra que. Tudo em volta estava deserto, tudo certo. Tudo certo como 2 e 2 são 5.
Na universidade, onde fui levar uns papéis, a atmosfera era a mesma: morosidade, um senso sem direção. Gente rareificada.
Talvez seja por causa disso que fui estudar em São Paulo: para manter os olhos lúcidos, como já disse em posts anteriores. E porque o senso de direção me pedia um pouco de solidão para percorrer. E fui.
A primeira coisa que eu lembro é que, ao sair da república, tinha dúzias de viadutos, com muitos, muitos carros, tudo em transição. Gente se empaçocando, e da mesma maneira, tentando abstrair o empaçocamento com musica, um livro, com o pensamento.
Tentei manter o bucolismo desesperadamente, como uma maneira de manter meus próprios princípios (deveras testados nessa época). Mas não havia mais ócio, tudo me gritava uma resolução. Ainda que de maneira discreta e silenciosa.
Parte 3
Esse blog já existia quando resolvi tomar uma decisão: ir pra perto da minha família. Finalmente é por aqui que a gente chega na relação coexistente: o sedentarismo é uma forma de afeto. Já que o ócio da minha fundação já não me acompanhava, busquei o silêncio do subúrbio. Onde os filhos dormem em seus quartos, as casas povoadas por laços afetivos: um tênis na sala, aquele biscoito que você gosta.
Aquela atmosfera foi tão maravilhosa, embora mantivesse o desejo de me criar enquanto homem, e não precisar de uma carapaça pra proteger meus sentimentos à deriva. Ser uma coisa só: passado e futuro, adulto e criança, filho e pai. Ser, em qualquer lugar, e continuar confiante do que acredito. Aí chega o mote da história.
Minha mãe arranjou emprego em São Paulo e, a revelia dos sentimentos da família, foi morar lá. E assim, como eu, querendo manter sua inteireza da caráter, tentou fazer, fora do contexto, o seu papel de mãe.
Ela é uma mulher que não gosta de especulações, pra ela tudo é verdade. E estas verdades em que acredita não têm duplas interpretações. É maniqueísta sim, mas de uma maneira frágil, como um subterfúgio para a dúvida. E é difícil ser analítico essa hora pois eu falo de alguém que me criou, embora minha proposta se mantem de ser ilustrativo.
Acreditava portanto em refazer sua família aqui, e isso era intransitivo. Não havia lógica ou logística, tinha que ser assim, porque para ela isso é amor.
Então fui morar à 37 Km de distância da minha faculdade e 15 do meu trabalho (sendo que ambas não se eliminam), manter uma casa em outra cidade que realmente não tenho menor identificação e/ou interesse (Guarulhos), fundar um lar que não era nossa casa, nem uma república, nem outra coisa: uma moradia. Assim, alugada, sem dono, sem anfitrião. Meu pai, num esforço apaixonado, cruza 120Km diários de moto para estar com ela.
Durante pouco mais de um ano e meio convivi com essa situação, muitas vezes perdendo a cabeça. Tudo isso porque sempre acreditei no amor invariavelmente, e principalmente porque definitivamente existem situações muito piores. Mas, voltando à parte 1, penso, penso e penso, e a resposta não vem.
Minha cabeça aos poucos, foi ficando sentimentalmente caduca, e muito falante. Ao voltar para o meu ócio, resolvi resolver. Completar o ciclo.
Ônibus 174, Eloá, Nardoni, minha famíia, e outras famílias que se consideram saudáveis: amor não é apego. Em todas essas tragédias acima citadas ou nos casos normais, em algum momento, o amor que tem de ser conservado dentro de si virou egoísmo: ou obsessão, ou ódio, ou negligência (para estas pessoas que acham que o inferno são os outros). Aprendi a duras penas que família não é aquela estrutura fixa e invariável (embora minha mãe, ainda que do jeito dela, acredite) e o quanto é importante dar a liberdade.
Estou aos poucos reunindo os cacos e símbolos de coisas que realmente representam o amor pra mim: as luzes da minha cidade, as crianças andando de bicicleta na praça Brasil, aquela morena linda que te olha enquanto se diverte. Talvez o único jeito de conquistar essa liberdade e me afirmar enquanto pessoa seja, ironicamente, voltando pra casa. Me banhando de ócio, que às vezes é vazio, mas pode também ser serenidade. Redescobrir o amor é necessário em tempos de tanta ignorância (haja visto o trânsito paulistano). Todos somos capazes!
Post longo pra caramba, quem tiver lido até aqui é porque se interessou pelo assunto. Então, queria saber via comentário ou e-mail, ou pessoalmente, qual é a sua família.
Ah, eu quero também desenvolver melhor essa idéia de vazio e ócio que permeia inclusive a polêmica Bienal que abre no domingo. Obrigado, amo vocês.