Os Mimos

Maio 19, 2008 by nenenetz

Era aquela de casa de cheirinho macio, parede rosa, mesa de tábua, fogão de 4 bocas. Nessa andança até a cozinha, olha pra porta do quarto e lá está: loira, branquinha, quase um cristal. Cristina. Semblante de concentração, está fazendo arte com seus tecidos.

Fecha os olhos ao palpar a textura de um fio mais árido, e é como se sentisse o trançar da rede, o vento da praia, o corpo moldado e folgado, suspenso no ar. Mas não se deixa levar e opta por um mais fino, mais bebê.

- Minha cristalina! – ela olha e desabrocha – Tua intuição me vigia! Quando fecha os olhos, abre a visão da palma da sua mão. Sempre a olhar no tear do futuro…

- Diga o que me trouxe além de poesia – e se ri.

- Trouxe…pão! Hum…ah, tem uma garrafa de vinho te esperando também.

- Que coisa juvenil, querendo me embriagar… primeiro embriague de sono aquele bebê que tava te esperando, ta ouvindo ó? – e o neném solta aquele “uéééé´” profundo como se soubesse a hora do pai chegar – Vai, vai! Que enquanto isso eu termino de arrematar essa peça.

- Sou seu servo.

E Antônio vai pro quarto verde pastel (não sabiam se era menino ou menina) se eximir do dia que passou longe de sua menina. Suas meninas.

- Bebebebebê! Cadê papai? – e o neném já se afoba – Aqui ó, voltô do mundo pra ficar com você, meu amor – e começa a cantar o Leãozinho que ela adora – “Gosto muito de te ver Leãozinho / caminhando pelo sol…” – e o neném fica resignado ao sono tão inerente a sua posição inconscientemente humana, dorme e sonha com o mistério da vida.

Um pequeno leão. No fresco verde da pastagem, tropeçando na sua pomposidade, brincando com seu desajeito. “o teu coração é o sol / pai de toda cor”, doura o tenro roseado do bebê, como a casa de cheirinho macio, estante com tevê e fotos ao lado, estas mesmas que marcar a presença de uma casa ao léu.

- Tônio, vem cá. – fala da cozinha, encostada no móvel.

- Oi, Cristal, digue, meu bem.

- Sê sabe que aquela loja na praia num deu muito certo né?

- É mesmo? Aquele povo é ignorante, não entende sua arte. – e pega a margarina na geladeira.

- Então, nem é tão questão disso, tá faltando organização, sê sabe que eu num entendo quase nada dessa parte administrativa…

- Pois é, mas essa parte é de menos quando se tem essa mão mágica, esta precisão de bom gosto… – e pega nas mãos cristalinas.

- Antônio, não. – e se afasta – Eu preciso de respaldo Antônio, ajuda. Se existe tanta mágica, alguém precisa dar valor pra ela, botar uma etiqueta. Você bem que podia se propor a fazer algo palpável!

- Você quer o quê? Que eu morra em uma repartição? – e se zanga.

- Não, queria só que os mimos que você me dá sejam pagos por você, e não por mim mesma!

Nisso um silêncio gela a cozinha. O bebê dorme. O leão cresce impetuoso, o sol lhe doura a pele. As fotos estão mais solitárias do que nunca. E o rosa parece, cada vez mais, uma ilusão.

Saber, verbo intransitivo

Maio 14, 2008 by nenenetz

A mente mente. Diz que faz mas desfaz logo a frente, e o desembaraço fica pra trás. Eu olho o pensamento como o ego que media esta relação, e lá está. Um monte de nada que é alguma coisa, alguma coisa do monte que é nada.

É aquela parte do objeto que você vê mas não o identifica, ou aquele monte de coisas sem contexto, tipo a casa da Hebe. Bom… se bem que a casa da Hebe tem contexto, seria ela própria, enquanto entidade.

Aquele aquilo, que ficou na vontade, uma grande idéia…que perdeu o ideal. Não me preocupo em entender, só não quero me perder de quem eu era no começo. Talvez pra saber quando é o fim, se é que existe final.

Ontem assisti um pedaço de Waking Life, na passagem a moça dizia que as palavras são inertes (tradução esboçal de Gabriel Garbulho), um código que nunca expressará por si só a profundidade de um sentimento sobre um algo ou uma ação. Sendo bem claro, se você sentiu dor, só você entende sua dor, pois ela carrega o seu contexto e a sua história, onde aprendeu o que é dor. Quando for passar a mensagem para outra pessoa, a dor dessa pessoa será embutida como conceito para entender a sua. Por isso que quando a gente ouve um conselho sobre um sentimento, só estamos relembrando o que a gente já sabe.

O que você sabe sobre mim? Já viu o meu vídeo, leu o meu blog, viu o meu show, foi meu amigo? E toda essa informação foi travestida de você para ser resolvida em um “eu sei como é que é”. A identificação é uma coisa curiosa, pois partindo desse princípio somos rochas esculpidas por nosso aprendizado. A alma em uma noz, que grita e ecoa a própria voz.

A gente nunca sabe nada sobre ninguém, e o que a gente sabe nunca pára pra nos explicar. Reitero Clarisse Lispector:

“Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo o entendimento”

Talvez entender seja um processo para a solidão. Você entende e não quer mais explorar: a rocha é mais autosuficiente ainda. A noz está cada vez mais enraigada, e sufoca a semente da criação que mora dentro de sua escuridão.

O grande processo para se recriar é nunca saber por completo. Saber demais é um perigo, pois saber é intransitivo. E a vida é permanente transição. Como a mente que continua a mentir.

Pablo, o menino simples

Maio 14, 2008 by nenenetz

Pablo = Pedro = Significa pequeno e indica uma pessoa com muita disposição e um otimismo contagiante.

Meu livro infantil, a Marina fará a ilustração, se tudo correr bem.

O nome dele é Pablo porque nasceu pequeno pequeno, como uma pedrinha no rio. Diz seu pai que colocou pó de nuvem nos sapatos, e o garoto saiu ligeiro na corredeira, crescendo e mexendo em tudo que ele queria. Olhava os grandes narizes e orelhas que nunca param de crescer, os colares da mãe, os cremes para a pele que pareciam tão apetitosos, gostava de desenhos que ainda não entendia.
Queria ter o cabelo verde e fazer barulho de planta quando bate o vento, aquele chiado do mato pedindo silêncio. Ouve música o tempo todo e nem precisa tocar, Pablo é sua própria orquestra. E dança primeiro mexendo o ombro, depois espalha o comichão pelo corpo, e dá pulinhos e se diverte, e de repente todo mundo quer ser livre daquele jeito.
- E aí Pablo, como vai essa força hein? – esse é o Tio Pedro, o tio mais velho.
- Tudo tudo, tio! – e aperta o Pablo que nem um boneco de massinha.
- Tudo o quê? – olhando desconfiado para a cara do menino.
- Tudo tudão, tipo um zilhão, né Pablo? – esse é meu pai, ele riu que nem quando ele canta com a mamãe, com boca de piano. E não precisa me cutucar pra fazer rir.
- Tudo deeeeeesse tamanho, porque hoje eu vou no parque e vai ser muito muito legal.
- Mas você só vai ver terra Pablo, às vezes pode ter um parquinho, mais nada.
- Eu gosto de vento, tio Pedro, num agüento mais ir pra geladeira.
Pedro achava que o shopping era uma geladeira: sempre frio e tudo sempre estava do mesmo jeito quando ele voltava, as roupas no mesmo lugar, e os atendentes sempre com cara de quem espera alguém que não chega. Inclusive um dia não queria mais sair porque pensou que lá dentro ele não ia crescer nunca, só sossegou depois que o papai colocou mais pó de nuvem nos sapatos. Saiu esfumaçando, apitando, e dançando como um trem na curva, tocando bateria no trilho, com o sol na cabeça. Bem sabe seu pai que o pó de nuvem não pode ser usado em dia de tempestade.

Café na Colina

Fevereiro 18, 2008 by nenenetz

A colina verde como a melodia, como o teclado dos teus belos dentes que se abrem em jardim, como um final feliz. Se todos vocês pudessem ver este sorriso, nem precisaria escrever este texto, de tão exato, fiel e caloroso que eu seria.

            Tomar café da manhã é uma arte, sabe vocês, que só se aprende quando se está apreendido. Já se sente o desenho do vapor do café ao pé do ouvido, se espalha sedosamente a manteiga no pão. O sabor traz visões que somente o foco da luz da manhã sabe produzir.

            Você acordou descabelada, assim como todos eles fora de esquadro. Desfaceladamente cintilante, as bochechas se rejuntam ao pé dos olhos e arma a larga rede do amor.

-         Adoro suco de café. – essa é ela.

-         Você tem inveja porque o meu café sempre rende mais. – esse sou eu.

-         Realmente, passei anos na análise tentando resolver esse trauma.

-         Menina, menina, movida a cafeína…

-         Você tá mais pra pão com manteiga…

-         Crocante.

“Não, cremoso”. Ai, ela é boa nisso. “Abre a janela querida, eles já acordaram.” E se vieram como um exército de zumbis, depois de um longo dia de amizade intensa. Lavam um por um o rosto na água que sai ansiosa da torneira, como se tivesse um nobre fim. Outros ficam ao sofá com cara de quem rememora silenciosamente um dia genial.

Mas qual a genialidade em ser humano, será atuar ou observar? Ou talvez interagir? Eu nunca consigo distinguir ou realmente categorizar as coisas que realmente me fazem feliz. Tentei fazer com que eles se sentissem assim também. A minha menina cafeína entende o que eu falo, quando a gente se beija, ou quando eu toco uma bela música em um lugar sem asfalto. É silêncio que corre nos poros, um comichão divino e a divindade tem 2 polos. É homem e mulher, dia e noite, feliz e triste, arroz e feijão.

Aí vem uma multidão de seres com feições alienígenas, olhos de néon, respirando nitrogênio e comendo clorofila, dizendo que a dualidade é brega ou muito redutiva. E eu digo “Queimem!” e todos eles viram tochas de fogo implodindo como estrelas cadentes na Rua Augusta. O concreto queima e o fogo é verde, como a melodia que continua serena e os meus passos que ditam o espevitar do fogo. Adoro a imperatividade sem império. E a gente continua a se beijar enquanto o reino da pós-modernidade rui escandalosamente calado.

E a minha felicidade continua ao abolir todas estas coisas que não preciso para viver, e que podem viver sem eu precisar, este escarcéu incendiário só ocorre por onde minha vida passa, no verbo das histórias que correm atrás dos meus olhos. E aí vive minha felicidade, atrás dos olhos. Quando as pessoas sentam na mesa e estão todas de fato lá, vestidas e desarrumadas como alguém que voltou da guerra da fraternidade. É uma vibração, um ruído rosa que corre entre a gente e brinca com nosso estômago. Fecho os olhos e danço com as cores.

Arrumar a mesa do café, de fato levantar satisfeito é um despeito contra a insensatez da humanidade.

 

Esta história não é fictícia, porém baseia-se em fatos reais.

Relato dos 20 anos

Dezembro 3, 2007 by nenenetz

Eu completei um quarto da minha vida e isso não pode se esvanascer como as bolachas que a gente come e joga fora o pacote ou as tantas coisas banais que às vezes interpretamos também.Todo aniversário meu coração explode em todos os caminhos, é como uma versão de mim que sai da fábrica (cada vez mais programada?, cada vez mais consciente?, quem sabe?) em direção à um novo ciclo anual em que a gente se desconhece pra reconhecer.Este ano passei a primeira parte em um hospital, com pessoas captando minhas vibrações passivas, meus sentimentos áureos que se libertam pela noite. Será que instauraram em mim uma nova alma? Sou o que sou e não serei outra hora. Continua incólume, como naquele dia de férias em que eu só queria o verde e o amor, após assistir Closer e escrever esta música. Saiu quase arrancada de mim de tão rápida e direta, cheia de conforto e potência. Sonhava em construir minha própria realidade através de um musical. E sempre foi assim, sei muito bem contar minha própria história pros outros, eu sou meu mito (e já escrevi isso antes aqui).Esse foi o ano em que meu mito caiu. Rolou a ribanceira, viveu anarquicamente, foi ácido. E isso pra mim mesmo é como ver um pai perder a honra: meu próprio heroísmo desfacelado.E isso é um perigo, seja para uma pessoa, seja para um país: O mito sustenta a verdade oculta de quem é feliz.Mas esse cara, esse que tem o humor rápido, que ama o mundo e sobretudo a calma, esse cara deu a mão pro outro, que vivia a sua vida assistindo o teatro. E hoje eu sou isso, parece que tudo faz o maior sentido (embora esteja ainda na maior bagunça).A partir de agora quero ir, um dia não é pra ser vivido duas vezes e qualidade de vida é pra ontem. Deixo aqui, talvez pra mim mesmo, talvez para meus caros amigos e filhos do futuro, o atestado de que eu não quero ignorar nunca as coisas que acontecem, independente do que for. Manter os olhos lúcidos sempre. Eu sou de São Carlos, e um dia eu voltarei para lá. Meus ancestrais viveram no Tatuapé, e isso pulsa dentro de mim. Eu já encontrei um grande amor, e preciso aprender a conviver com isso. Amar é o meu vício, e nada cura para sempre. Obrigado, é hora da Ave Maria.

Assombrado, assombroso.

Novembro 5, 2007 by nenenetz

Clareia o sol. Vai preencher de luz a invasão do ambiente. Agressiva, rebelde, sem precedentes. No canto da cama, eu. No canto de luz que rebate, arde, reverbera, frequencía. E esta onda corta o tempo e o espaço malfadado, corre a vida como se já não houvesse seqüência, sem saber o fim.

A gente nunca sabe o fim. Se soubesse, não o esperaria. Ou talvez seja uma visão demasiadamente limitada daquele que sempre viveu sobre a lógica da pedra.

A rocha quebra na praia, espalha minérios na espuma da criação. Minha tristeza quebra em um sino, que dá vida à assombração. Assombrado, assombroso.

Sombra, sono. Quebrando na ladeira, no balanço da matéria mecânica. O negativo do sol, sou eu, o contrário da extensão, que rasteja e esconde a beleza sincera do dia. Espalha na morosidade, que vem de uma insatisfação já esquecida.

Eu nem me lembro a última vez que sonhei, talvez porque o sol fosse forte demais. A mente neblina no tédio de esperar gerações de prédios, de invasões e de órgãos públicos e religiosos passarem pela janela. São aqueles que controlam o circo dos algoritmos. Controlam o controle, e sabem como construí-lo. Mantém a imensa massa criativa na fila de espera afetiva. Constrói o traçado de uma vida no esquadro.

Mas sonhos não envelhecem nem expiram. Ainda exalo o ar das independentes gerações, que não viverão sobre a égide desta imensa e ensolarada repartição pública. A cidade de São Paulo.

O homem desmedido

Novembro 5, 2007 by nenenetz

A história começa com um homem desmedido. Nada cabia em si, nada se conformava. Este homem se sentia desconfortável no seu apertado terno, no aflitivo nó da sua gravata, no amor sufocante de sua mulher, na desmedida doçura de seus filhos. Andava a passos largos que se conflitavam com a compridez de suas pernas. Tudo tinha um limite e todos aceitavam isso da maneira mais pacífica. O seu espaço limitado de ação, o limite do livre arbítrio. Inconcebível.Queria acelerar seu carro, mas ele tinha um limite, e sabia que se o ultrapassasse, encontraria outro limite, o de sua vida. Sabia que para manter a sua qualidade de vida, teria que se manter no limiar de uma rotina rigorosa de trabalho e alimentação saudável. Gostava de correr riscos mas sabia que este só existia por causa da barreira limitante que o cercava. Não sabia nem se gostava mesmo ou era condicionado por tantas limitações.Se coçava como se sua alma fosse parir um monstro. Era a quentura que carcomia sua carne e arranhava com fúria felina suas entranhas, rasgava suas tripas com desprezo de cozinheira sobre as vilosidades de um animal. E apesar de ser agonia, isto era cotidiano e quase natural.Ia assim aos piris e paques para a Igreja. A eterna demora da missa, o padre balbuciando em um frenesi contido pela educação que se traduzia em um salivar abundante, fervilhante. O perdigoto que flutuava pelo espaço sagrado até se destruir contra o chão e absorver o impacto na mutação da tensão superficial. Tensão. O mundo estava tão amarrado aos seus limitantes, que criavam mais limitantes e aumentavam e iam cada vez mais se esbarrando, se enervando, se conclamando, se preparando. Aquele perdigoto podia ser a caixa de pandora. Podia ser uma bomba atômica. E o ying yang girava e se tornava um círculo nebuloso, cinzento. Até seus princípios se incomodavam por saberem que são princípios pois há o limitante de um fim.Um dia este homem cortava a cidade com seu carro veloz quando a Terra parou. O motor fundiu, o trânsito travou, os bárbaros avançavam com suas tochas. Vinham com milhares de cavalos de potência que se limitavam por aquele incidente e iam acumulando poder como se não houvesse amanhã. Nisso o vendedor de chocolates já aproveitava o ensejo para vender um pouco de calma e as pessoas devoravam os doces como se mascassem parafina, ouvindo sei lá que música, e já não prestavam atenção no barulho nem queriam ordem, os pensamentos gritando como uma bolsa de valores. E o homem sentia que o muro ia ceder em cima dele.Pela primeira vez ia ver a sociedade passar dos seus limites. Porém de uma maneira não tão confortável. Um ilimitado instinto o pegou pelo braço e saiu a correr antes que a bomba estourasse. Olhava para trás e via o exoesqueleto de um antigo homem que abandonava o limite da carne para obedecer ao invisível.Chegou a uma estação de metrô. Esperou a fila, comprou seu bilhete, passou pela catraca. É preciso ressaltar este acontecimento: ELE PASSOU PELA CATRACA. E sentou calmamente no seu banco, foi pra casa, e viveu por mais longos 40 anos. Se foi feliz, não sei, mas afinal, quem se declara integralmente?Desde então, sempre que passo pela catraca reflito sobre esse causo urbano e descobri o quanto ela vale, independente deste valor ser positivo ou negativo. Mas ela te modifica. E todo dia parece que a gente não sente como o objeto tem vida, e a gente é que é indiferente. 

Me Against the Music

Setembro 10, 2007 by nenenetz

”Hey Britney, i wanna see you out of control”. É Madonna, você conseguiu. A saga da maior bubblegirl da história é um fato social digno de comentário, assim como sua luta contra a música (literalmente).

            Belinda Spearson (nome de sua 1ª encarnação) criou-se como herdeira legítima de Mickey Mouse. Nos braços paternais do amado rato forjou a figura que iria alça-la aos imensos palcos instalados em igualmente imensos estádios, fazendo juz a igualmente imensa pretensão paternal de massificação.

            Não, Mickey não é maquiavélico, talvez somente quisesse um bom exemplo a uma América perdida em sua identidade, cumprindo o vazio dos dias industriais, das famílias que estampavam as caixas de cereal. Ser parte de uma onda, uma catarse, uma histeria controlada dentro de seus ideais de uma sociedade pacificamente instalada dentro de um cercadinho (quem já assistiu Mulheres Perfeitas me entenderá).

            Britney então foi feita do mais puro plástico (Suzy morreria de inveja), em uma fôrma banhada a leite de cabra, recheada com a doçura do chiclete e a pureza do feno do Texas. Tinha uma singeleza loira encoberta de rudes traços do sul, do caricato americano, um quê de Super Size Me em sua filosofia. Seu “Hit me baby” tinha a imoralidade puritana, a conotação perfeita, o agridoce, o tempero pop. E realmente deu certo.

            Sua branquitude primeiromundana ganhava cada vez mais impavidez, ao passar de sucessos que discutiam relacionamentos difíceis, complexos da adolescência, ou aqueles que só pedem pra você mexer a bunda (o que não deixa de ser necessário, e atualmente no pop é função primordial).

            E as pessoas realmente queriam mexer a bunda (mais do que chuta-las, como nos tempos do grunge). E mexer a bunda envolve a libertação de uma adolescência fingida (vide Grease), de um espaço pessoal reservado, das mesas na festa de aniversário. O mundo é uma pista de dança em plena orgia tribal, e quem iria querer um ídolo virgem?

            Então Britney se livrou da adolescência (engraçado, foi da noite pro dia) e de todo o conjunto de apetrechos que envolviam sua castidade (sem maiores especificações). Em “I´m a Slave 4 U” abandonou também a melodia (tá bom, isso foi ironia), e começava a embranquecer os tratados criados por Missy Elliot e que seriam sacralizados com Timbaland (eu realmente gosto dele). Abandonando a carapaça, veio a transparecer novamente a Belinda, o ser humano, aquela que erra, que acerta, que vai no banheiro, que transa no carro, etc.

            Mas parece que ela mesma se incomodou ao perceber que o reflexo no espelho era…ela mesma. E que papai Mickey agora era um cafetão machista.  Despida até demais, perdeu a estribeira do que era imagem e do que era real. As 2 dimensões, até então paralelas, se cruzaram e irradiaram o espaço infinito de ser um  simples ser e assumir toda a responsabilidade por isso.

            Saiu da música para virar história, principalmente nos tablóides e periódicos, afinal, uma notícia desse teor não dura tanto tempo. Realizou uma série de ações para muitos incompreensíveis, desconexas. Se casou em Las Vegas, deixou seu filho cair, raspou a cabeça, saiu bêbada da balada.

            Agora analisando com dureza, o que era mais doente: ser um pré-moldado tão puro como estúpido, ou uma mulher que erra, mas existe nessa atmosfera? E porque ninguém se choca quando a Amy Winehouse faz pior ou a Pink assume que inciou a vida sexual aos 9 anos?

            Para mim, a Britney é uma vitoriosa, embora ainda esteja em recuperação. Dentro de sua branquitude careta, conseguiu ser escandalosamente inconseqüente fazendo muito menos do que a Amy ou a Pink fazem. E o melhor: nem cantar direito ela canta.

Ainda por cima colocou uma peruca e foi à luta, agora interpretando aquela que um dia ela realmente pensou ser, a americana perfeita. Ela está no domínio, só falta cair em si e descobrir isso.

            Deus abençoe Britney Spears. E a Madonna sempre sabe o que fala, ô mulher porreta.

 

Na boca do elogio

Julho 15, 2007 by nenenetz

“O mundo precisa de mim,
o mundo precisa de nós,
o mundo quer é ser feliz,
o mundo desatou os nós (?)
Oh, 54 Blues, 54 Blues (ad eternum)”

(54 Blues – 54 Blues)

- Eles não são melhores que eu!
- São sim, querido, são.
- Mas não era pra ser assim, eu fiz tudo certo… então quer dizer que mesmo se eu fizer tudo sem a menor sombra de erro eu ainda vou ser pior que eles?
- Sim.
- Por que o seu sim é tão cruel?
- Porque deve ser assim. Agora dorme, vai.
- Você não me ama mais, né?
- Talvez eu te ame ainda mais quando você souber lidar com a derrota. Agora dorme.

Por que ela insistiu tanto em ressaltar minha incompetência? Que falta de sensibilidade… Eu vou perdoa-la? Porque se eu o fizer, vou estar assumindo a falta de talento. Ou o excesso de orgulho.

Meu mundo caiu. Há dois anos atrás eu tinha todas as portas do mundo abertas, eu era pleno. De repente, eu nem senti, foram se fechando a cada vez que eu descobria uma deficiência.

Vi uma moça no metrô, cara de funcionária pública, lendo um livro de auto ajuda. Ela tinha as linhas da boca baixas, cara espancada pelo sono de dias, meses, talvez séculos. Olhei pra ela e comecei a me gabar. Eu, um exemplar raro da espécie, fina cultura, fino trato, comunicativo, talento nato, na boca do elogio. Eu podia muito bem ser o autor daquela enganação que ela lia, arrebanhando a alma dela sem massagear por demais o intelecto, sem confronto. Ela imploraria com veemência pra ter um pedaço meu que ela mantivesse por propriedade, um pedaço de unha, uma pelinha do canto da boca que seja. Seria como um território fértil onde ela cultivaria a sua pequenina horta de idéias, com vegetais que não vão muito além do chão. Eu era um jacarandá. Ela, uma hortaliça.

Nisso, quando dei por mim novamente, reparei que esta mesma moça me encarava com desprezo. Natural, ela estava de pé, lendo, com uma mala no ombro esquerdo que esticava o braço que alcançava a barra de ferro. Tinha dado lugar para uma senhora sentar. E eu, sentado no banco preferencial dos idosos, segurando sequer um volume.

Eu, exemplar único da espécie humana, não tive primeiro a capacidade de observar o ambiente como um todo, e ainda por cima de compreender a sinalização visual. De quebra, meu caráter foi junto com tudo isso.

- Não acredito que você não teve a capacidade de levantar e chamar a moça pra sentar depois de tudo isso!
- Ah, não sei, ela não era idosa também…
- Claro, mas ela era um ser humano!
- Sim, eu também.
- Não, você é uma mente humana, ultimamente não anda “sendo” muita coisa não…
- Porque você é sempre desagradável?
- Porque você foi desagradável primeiro, no metrô.
- Por isso que eu te amo.
- Hein?
- Porque você é todo dia um desafio.

Sim, eu amo ela, principalmente quando ela me põe pra baixo. Porque ela sempre descobre minha verdade mais profunda. Quando estou com ela é aquilo, só aquilo e mais nada. Não sinto agonia, não estou perdendo tempo, não estou frustrado. Só quero aquilo e pronto, não importa o quanto será rentável ou popular. Ela me põe no lugar.

É difícil aceitar um lugar nessa imensidão, sentar nesse posto com conforto. Sempre se quer mais, sempre dá a sensação de que você poderia estar fazendo aquilo melhor que a pessoa que está na atual função.

É como a velha ladainha do músico frustrado que liga o Faustão e vê uma recém-celebridade estourando um sucesso. “Eu fazia bem melhor que ele”, então por que você tá sentado do meu lado nessa casinha na zona leste comendo macarronada de domingo?

Eu tenho medo, muito medo de me frustrar. Mas quando ela fala que eu sou um derrotado, aquilo me soa tão bem humorado. Aí eu lembro de toda minha trajetória de ego a cada palavra de incentivo recebida, a cada elogio, a cada prêmio conquistado e tudo isso cai por terra tão rápido quando você faz uma coisa errada e não tem coragem de consertar, mesmo tendo a real possibilidade.

A moça do metrô é bem melhor que eu. Ela sim, pode mudar o mundo ou acabar com uma guerra. O meu máximo é se gabar de ter feito uma inutilidade criativa que pode entreter. Mas meu amor sim, esse me faz ser a melhor pessoa do mundo.

Obs: essa é uma crônica fictícia.

uma observação

Julho 10, 2007 by nenenetz

Para mim, tudo tinha que fazer sentido. Afinal, as coisas se movimentam, e tudo que se movimenta tem um sentido.

Aí eu descobri que estava enganado, e esse engano me confortou. Muitas vezes as coisas que se movimentam não tem sentido, apenas seguem uma direção. O sentido não pertence a quem trilha um caminho, mas sim à quem sabe o que vai encontrar no final deste.
É isso aí, cada um na sua convicção. Mas que pelo menos tenha uma.