Posts de Setembro, 2006

Hermetismos

Setembro 20, 2006

Outro post rápido, quase que uma nota para não esquecer o que pode se tornar uma grande história no futuro, caso queira se delongar.

A universidade é herméticamente isolada. É triste comprovar que um dos meios de transformação social está vivendo em uma dimensão completamente paralela, e para provar isso me utilizarei de uma historinha pessoal.

Esses dias tenho trabalhado no centro de São Paulo, local tenso. Mas essa tensão se transforma em uma efervescência de co-relações que deixa a criatividade em êxtase. São camadas e camadas de sociedade que se provocam e se interferem, ferindo ou curando antigos vícios hierárquicos. São executivos comendo yakisoba feito na rua por um chinês pobre que sequer sabe português. Atendentes, balconistas, garçonetes trabalham cercadas pelo luxo, mas se desprendem de toda riqueza quando entram no ônibus. Aquela riqueza pertence tão e somente às imensas paredes de pedra e vidro que criam monolitos que cutucam o céu.

Enfim, depois de um banho (e de literais esfregadas) na realidade, saio do turno capataz para o de vítima (faço venda de produtos para universitários, só para ilustrar). Chego para a aula no meu instituto e vejo um imenso painel com os dizeres: “Senhores, o objeto é a cidade”. Coisas como essa passam despercebidas por nós, mas nesse momento prolífico merecem análise de gravidade. Primeiro “senhores” denota uma intenção irônica, da fala respeitosa de quem quer lhe aproximar do assunto, como uma mesa de reunião. Porém esta mesma aproximação é utilizada pelos mais geniais populistas de nossa história (inclusive atual).

“o objeto é a cidade”. Pois não, a cidade é um objeto. Como bem é da filosofia da respectiva faculdade, o objeto está lá para ser analisado. A análise é fria e curiosa, sem deixar de ser intensa. São fotos, depoimentos, documentos, anos e anos de história que se amontoa em camadas construídas. Pois bem, a cidade é um objeto, serve para ser analisado. Mas serve para interagir? Por ser um objeto, pressupõe-se que não tenha vida própria, ou que seja analisado sem a sua capacidade criadora, de opinião, de interferência.

Portanto, chegamos ao ápice do egocentrismo: a faculdade pode analisar a cidade, escarafunchá-la como um cadáver; a cidade não pode interferir na universidade, é só um objeto. E sem a troca de fluxo, perde-se a oportunidade maravilhosa de viver a efervescência. E fica-se alheio, vivendo no mundo de idéias que outras pessoas já formularam (sim, bibliografias) contadas por caras que já viveram, ou não.

Por fim, hoje tive uma aula com o Professor de História da Arte, um cara que assumidamente vive na camada artística sem nenhuma hipocrisia de análise de classes. Contava algumas histórias prazeirosas nesta última aula e uma menina, na primeira fileira, suspirou e disse algo como “eu queria estar lá”. Ela é a representação da universidade: está localizada em um mundo que não existe.

Frase bem-humorada do dia: “Quem gosta de pobreza é antropólogo.”

Para ouvir: “A lua me traiu” – Banda Calypso, ouça e tente descobrir como dois seres horrorosos do Pará (Joelma e seu marido Chimbinha) conseguiram sair das profundezas e montar com sangue e suor um dos shows mais bem produzidos do Brasil.

Gabriel Santos Garbulho

Lost in the Supermarket

Setembro 4, 2006

Quando se está sozinho e há um fator físico ou psicológico que incomoda, seja a falta de algo ou a dor, o movimento óbvio é de se recolher e encolher. Alguns dizem que essa posição traz o reconforto do útero materno, o banho de divindade. Mas só a posição fetal não bastava. Já era hora de voltar ao útero físico, fazer o natal. Voltei então à gestação, voltei à minha cidade.

 O corpo, estando aqui, se entrega à placidez: me alimento de tudo, desde as paredes ao amor das pessoas, ainda que este não seja dedicado à mim; não, isto não é parasitismo, é raiz, sou parte de tudo e tudo de mim faz parte, o fluxo é inevitável.

 A cidade ainda dialoga com o passado: as ruas são estreitas e diretas com quarteirões sólidos. As pessoas refletem o ambiente, são estreitas e diretas com opiniões sólidas; demarcações, glebas. Aliás, uma pequena pausa no texto para saudar a feiura da palavra gleba. Quão péssimo deve ser morar em uma gleba. Palavra viscosa, mascada. Atenção vocês loteadores e especuladores, numa era em que tudo é soft e tem design (não, não estou jogando lama na minha profissão, apenas chamo a atenção para apropriações tortuosas do termo; cabeleireiro não corta mais cabelos, faz hair design; cozinheiros não fazem mais pratos, praticam o elegantíssimo food design; em breve, os casais que querem ter filhos não farão mais sexo, planejarão um child design!?…), ninguém merece cultivar um sonho de way of life num lugar chamado Glebas de Santo Antônio…

Mas enfim, nessa placenta há amor, há concreto e há história, que dança sem a gravidade do presente em torno das construções. Os tijolos estão todos imersos em causos e casos, que hoje em dia talvez tenham o mesmo valor. Vou andando sem me envolver no passado, mentira. O passado está encravado, está lá, mas procuro escondê-lo onde ninguém desconfia. Fui ao supermercado.

 Essa é a atitude mais acima de qualquer suspeita. Quem se interessaria por um supermercado que toca Ray Coniff e cujo chão tem sabor de verde-hospital? Procurar comida? Não, estou mergulhado nela. Estava a procura de algo que me procurasse, uma surpresa, uma suspeita. Ou esperava que Alguém tivesse acordado com fome, botado um tênis e ido procurar algo pra comer. Ou que fosse me procurar porque sabe que eu sempre preciso estar lá.

A parte mais bonita da pessoa mora em seu cotidiano delicado. A pessoa é o que é quando está na mesa do bar, ou ao seu lado no cinema, mas ela é ainda mais, quando está escolhendo os tomates, ou quando está lavando a louça. A comida e a limpeza faz a gente sonhar. Fazer comida e fazer limpeza alimenta o sonho, guarda o sonho no frescor do seu perfume, da sua brancura. Eu tinha o sonho de encontrar Alguém no seu momento inevitável. Sim, meu Alguém é maiúsculo porque tem um sobrenome. Mas prefiro generalizar porque eu sou covarde. E todo covarde tem seu charme, fulgás, mas tem.

Espero o encontro que só eu marquei (meu Deus, que frase emo) enquanto peço os pães, pego um tubo de mostarda escura. Lembro que ela é muito mais delicada que eu, sabe como me evitar nos mínimos detalhes. Espero. É isso que a faz sublime.

Perdi o amor no supermercado, mas encontrei uma ótima promoção. Em dias de Capitais, o mais importante é se atentar aos preços, esquecer os gestos. O sublime só faz eu me lembrar que lá não há lugar para eu me encolher…

Moral da história: Nada como uma grande oferta para esquecer um grande amor (poderia ser um slogan de supermercado, não é?).

Para ouvir: Lost in the Supermarket – The Clash. Nada mais apaixonante que Clash. Na desilusão e estupidez (consciente) dessa música é possível sentir todo o sangue que Joe Strummer colocava na composição. E a parte que o baixo dá as “oitavadas”, aff….