Outro post rápido, quase que uma nota para não esquecer o que pode se tornar uma grande história no futuro, caso queira se delongar.
A universidade é herméticamente isolada. É triste comprovar que um dos meios de transformação social está vivendo em uma dimensão completamente paralela, e para provar isso me utilizarei de uma historinha pessoal.
Esses dias tenho trabalhado no centro de São Paulo, local tenso. Mas essa tensão se transforma em uma efervescência de co-relações que deixa a criatividade em êxtase. São camadas e camadas de sociedade que se provocam e se interferem, ferindo ou curando antigos vícios hierárquicos. São executivos comendo yakisoba feito na rua por um chinês pobre que sequer sabe português. Atendentes, balconistas, garçonetes trabalham cercadas pelo luxo, mas se desprendem de toda riqueza quando entram no ônibus. Aquela riqueza pertence tão e somente às imensas paredes de pedra e vidro que criam monolitos que cutucam o céu.
Enfim, depois de um banho (e de literais esfregadas) na realidade, saio do turno capataz para o de vítima (faço venda de produtos para universitários, só para ilustrar). Chego para a aula no meu instituto e vejo um imenso painel com os dizeres: “Senhores, o objeto é a cidade”. Coisas como essa passam despercebidas por nós, mas nesse momento prolífico merecem análise de gravidade. Primeiro “senhores” denota uma intenção irônica, da fala respeitosa de quem quer lhe aproximar do assunto, como uma mesa de reunião. Porém esta mesma aproximação é utilizada pelos mais geniais populistas de nossa história (inclusive atual).
“o objeto é a cidade”. Pois não, a cidade é um objeto. Como bem é da filosofia da respectiva faculdade, o objeto está lá para ser analisado. A análise é fria e curiosa, sem deixar de ser intensa. São fotos, depoimentos, documentos, anos e anos de história que se amontoa em camadas construídas. Pois bem, a cidade é um objeto, serve para ser analisado. Mas serve para interagir? Por ser um objeto, pressupõe-se que não tenha vida própria, ou que seja analisado sem a sua capacidade criadora, de opinião, de interferência.
Portanto, chegamos ao ápice do egocentrismo: a faculdade pode analisar a cidade, escarafunchá-la como um cadáver; a cidade não pode interferir na universidade, é só um objeto. E sem a troca de fluxo, perde-se a oportunidade maravilhosa de viver a efervescência. E fica-se alheio, vivendo no mundo de idéias que outras pessoas já formularam (sim, bibliografias) contadas por caras que já viveram, ou não.
Por fim, hoje tive uma aula com o Professor de História da Arte, um cara que assumidamente vive na camada artística sem nenhuma hipocrisia de análise de classes. Contava algumas histórias prazeirosas nesta última aula e uma menina, na primeira fileira, suspirou e disse algo como “eu queria estar lá”. Ela é a representação da universidade: está localizada em um mundo que não existe.
Frase bem-humorada do dia: “Quem gosta de pobreza é antropólogo.”
Para ouvir: “A lua me traiu” – Banda Calypso, ouça e tente descobrir como dois seres horrorosos do Pará (Joelma e seu marido Chimbinha) conseguiram sair das profundezas e montar com sangue e suor um dos shows mais bem produzidos do Brasil.
Gabriel Santos Garbulho