Posts de Outubro, 2006

O cabra dos teclados

Outubro 6, 2006

Começo aqui a saga de Zézo Pernambuco, será dividida em vários capítulos para das fôlego e subsídio à esse escritor. Obrigado!

Capítulo 1

Um dia Zézo Pernambuco teve que chegar às veias de fato: o que poderia fazer ele contra a boa música? E pela segunda vez se sentiu impotente frente à própria capacidade de entreter.

 

Se lembrou da infância cabocla, quase rural. Morava numa cidade escondida do rio e da mata, mas sempre perto de Deus. Iporangaba do Norte se congregava frente à pequena igreja rosa desbotada. A igreja era seca porem bem postada: nunca faltou pompa e circunstância nos cultos, Jesus ficaria orgulhoso.

Como é costume nordestino, cantavam longamente nas missas. O coro das senhoras desgastadas se juntavam aos tons incisivos das crianças, num canto que fundia a angústia e a esperança, juntava as pontas, atava os nós. Entre as canções de louvor, canções exaltando a simplicidade do Deus daquele lugar, as metáforas livres do asfalto. Luiz Gonzaga, sempre. Se Padre Cícero é o santo, Gonzagão é o anjo, não exatamente no sentido da pureza, mas talvez no da mensagem. Sabe como é, morre o homem, fica a palavra. Outras canções populares eram bem vindas: Roberto Carlos (nada melhor que um católico fervoroso) e duplas sertanejas animavam os cultos.E havia violões e vozes que transpusessem o popular ao árido e assim o culto se tornava uma festa popular.

Essa foi a primeira aparição de Zézo para o sucesso: fazendo show para Deus. As senhoras adoravam seu carisma infantil (toda senhora adora crianças talentosas, como o Raul Gil bem demonstra), seu gesticular poderoso, sua capacidade de acreditar. Chamava as pessoas para perto de Jesus como se estivesse completamente interado da causa por qual este lutava.

Logo se tornou uma espécie de anjo, um transmissor direto da mensagem de Deus, com a credibilidade da pureza infantil.

Os anos vão passando e a redoma do mito vai se construindo: o garoto tem fé. As senhoras mais exaltadas viam um profeta, as mais gananciosas um político, as mais tradicionais um padre carismático. Tinha um pleno requisito de quem arrebanha multidões: olhos profundos. Seus olhos eram como uma grande floresta cheia: tinham uma fúria silenciosa, um bucolismo de defesa. Seu silêncio era um decreto. Sua fala, um pronunciamento. Ninguém tinha a capacidade de ferir a confiança inabalável de quem espera silenciosamente o bote. Sorrateiro…

E como é próprio das crianças, sempre há a vontade de conhecer o inexplorável, ir pra outra margem do rio. Ainda mais quando se tem tanta confiança, sabe-se que o risco de se afogar é menor pra quem tem tanto ímpeto em sobreviver.

Logo começou como um corisco aceso: a chama do sexo havia batido à porta do seu corpo. O pecado amaciava a sua carne, sua fé ficava nebulosa. Certamente, as senhoras beatas sabiam o que ocorria, nunca se engane, elas sabem tudo. Porem, como é natural da sabedoria, viva e deixe viver: tudo que vem da natureza volta pra natureza e a ordem se reestabelece.

Zézo então começava a interpretar a si mesmo: a luz que o iluminava era a mesma clareira que lhe puxava para a terra. Com medo do seu problema social ferir toda a grande responsabilidade social, interpretava a si mesmo como uma forma de manter o povo em sua placidez religiosa: “eles só precisam dum ídolo, já adoram santos de pedra mesmo” pensou consigo mesmo. Seus olhos plenos de armadilhas mantinha o povo confiante. As missas continuavam animadas, transbordando o poder de vida daqueles que tem quase da metade que nós geralmente exigimos pra começar a pensar no assunto. Comadre Sebastiana, tia de Zézo, na primeira fileira de véu preto (já era viúva), erguia as mãos pro alto e conversava com os santos nos cantos das paredes da igreja, num grito primal, espiritual. Ao final de cada missa sentia mais próximo o fim da missão destinada por Comadre Toninha: dar um direcionamento pro menino. Seria um grande padre: “Olha como ele arrebanha esse povo, meu senhor. Dê-me esta graça, encerre este filho em Deus!”.

Ao lado de Sebastiana ficava Verinha, sua filha, prima de Zézo. “Zezinho fala mais que a boca, abestado… Mãe, quero ir embora, cale este menino, ele não deixa o padre terminar!”.

- Aquiete-se Vera Lúcia! Dá pra ver que você só gosta do que é do cão. Deixa aquele treco do maldito e ouça, menina. Não é a toa que Deus te fez assim, encarnada.

- Deus me fez preta só porque eu gosto de televisão, é? Que raio de Deus é esse!

Após essa frase polêmica, dita em alto e bom tom, a missa parou. Todos olham pra Verinha como se ela tivesse colocado o prego na mão de Jesus. E a menina ouve o comentário que fere: “É a pretinha da Sebastiana” em tom cínico e linear. Verinha sente-se queimada pelo sol da vergonha e sai correndo como se, dentro daquela igreja, fosse entrar em combustão por tanta blasfêmia.

            Verinha era uma menina completamente normal. Adorava novela (como ainda adora), carioca (por causa do sotaque da novela), comida de latinha. Queria o que era diferente e sempre foi assim, geniosa. Menina desbocada, leonina, assumida, de vez em quando era apegada à uma fofoca, coisa de interior, mas quando era pra falar mal, falava na cara mesmo. Logo, não era de muitos amigos, mas os poucos, essencialmente verdadeiros ou medrosos. Tinha presença entre as outras meninas pois impunha respeito: negra forte, bem postada, linda. Rosto bem feito, olho baixo, boca grossa, corpo torneado, adorava esporte e disputa. Por isso topava sempre o desafio, e geralmente tinha que ser com o Zézo, senão não tinha graça. O “menino-santo”, como ela apelidou, era alvo da rivalidade pois era como um irmão menor: chegou em casa quando a tia morreu. Foi tomando o espaço da menina com sua alma canonizada, não fazia nada de errado. Era o filho homem que Sebastiana sempre sonhou, e ainda veio de tabela com um talento especial.

Zézo apurrinhava a menina sabendo que a culpa nunca ia ser sua. Verinha fazia Zézo sempre chegar mais próximo de ser humano, sair do altar.

Essa história de ser humano nunca atraiu Zézo até o corisco do desejo voltar a relampear dentro dele.

Vendo Vera saindo frustrada, saiu discretamente (porém não sem interrupções) da missa, foi atrás da menina. Sabia que a sua cor era o pé de apoio, a única causa que a deixava sem sustentação.

Chegando na praça, o único ponto verde da cidade, estava ela sentada, na beira da árvore de copa mais gorda. Estava abraçada às pernas com a saia caída sobre o banco. Zézo chega:

            - Que que te sucede?

            - Xispa minino! Encarnou painho agora, é?

            - Sê tem vergonha de ser preta, é?

            - Eu tenho orgulho de ser da cor do meu pai! – silêncio depois da fúria – Mas eu nunca vou ser a mocinha da história. A mocinha sempre é branca. E a boazinha é sempre loira.

            - Minha mocinha não tem cor não. Fosse pra gostar de mulher branca, eu arranjava uma santa pra mim, tudo da cor do leite. – Ele dá uma risadinha sem compromisso, e ela ri pra não perder o juízo. Ele continua:

            - Eu te assumo sabia, do meu lado, num tenho vergonha não. Pode vir, venha!

Zézo pega sua prima pela mão e ela titubeia um pouco, acho que mais pra falar que titubeou. Eles saem abraçados desfilando frente à cidade, que não estava lá muito cheia. Era horário da missa.

Pela primeira vez, Zezo abusou de sua autoridade. Seu respeito dava cobertura pra sua prima, fazia ela esquecer da própria cor. Era como se, estando ao lado dele, ela fosse um ser superior também, tal qual a Virgem Maria. E de adversário seu primo se torna um aliado, namorado.

Sabendo que sua tia não entenderia, muito menos aceitaria o ocorrido, faz-se um combinado: só se encontrariam depois do meio da missa. Enquanto a tia via Deus passar, Verinha mostrava seu guarda-costas, quase que um amante, para as amigas.

Tinha conquistado o garoto da mais alta virtude da cidade. Ninguém conseguiria maior ousadia, ainda mais morando sob o mesmo teto. E esse mesmo teto foi ficando pequeno demais pra tanta juventude.