Esse é um post grande escrito a mão numa noite de crise de paixão pela vida.
Nestes 15 últimos dias de São Paulo, coisas maravilhosas aconteceram, mas um grande dilema ficou: as transições da vida. É um momento que a gente não sente e de repente em outra coisa se transformou. Mais ou menos como dormir em frente à TV, nunca se sabe qual a última cena que se assistiu mas tão e somente que estava acordado.
Eu estava acordado? Não sei. Só lembro que algo puxava meu braço em direção ao que ficou para trás e outro puxava rumo ao que ainda não era claro. Era uma encruzilhada, uma bifurcação, o desmembramento de certezas em apostas.
Num desses dias, eu parei e olhei profundamente o espelho. Olhei para o profundo mistério do espelho. Olhei pra minha imagem com agonia e com zelo: já não sou o mesmo. Longe das coisas que compreendi, das pessoas que eu trilhei. Apesar de tudo, esta solidão me completava, a vastidão da distância preenchia. O mundo é inteiramente meu, posso estar potencialmente em todos os lugares. Isso faz me sentir mais livre, perto de Deus.
Vejo meus primos crescerem e transitarem inconscientemente pelo que eles serão. Às vezes me sinto pai, às vezes amigo, às vezes irmão. Perto deles me sinto mais jovem ou muito mais velho, depende da ocasião.
Incrível também é como a tecnologia mudou o calor da lembrança. Pode-se conversar ao vivo de qualquer canto do mundo. É tudo direto e raso, sem interrupção: minha vida não é um canal de televisão.
Não sei se eles consomem a tecnologia ou ela que os consome, a simbiose é plena. Suas relações passam pelo filtro da web, os seus sonhos também. Os pensamentos todos desorganizadamente despejados lá. Não vou mentir, os meus também. Mas eu ainda resisto, por isso me sinto mais velho.
Fui cotado como pai duas vezes em duas semanas, é algo a se considerar. A paternidade anda me rondando, não literalmente ainda.
Vejo meu primo dormindo, cabelo cortado, corpo esparramado. Dorme como uma criança, acorda como um homem. Perguntaram se ele era meu filho.
Eu brinquei, desconsiderei, como um garoto. Mas chegando em casa, de volta ao posto de sobriedade adulta, eu pensei: “E se fosse?”. Isso me traz mais carinho ao olhar para essa cena pacífica de sono. Carinho como o de uma menina ninando sua boneca, de avô quando conta história, de plantador que vê a horta crescer, abraçando o momento. Eu amo o tempo, que me deixa cada vez mais tolerante com o amor. E amo também cada vez mais o meu filho que ainda não nasceu.
Eu ri com eles como se eu tivesse 15 anos, porém reflito como se já estivesse nos 51, andando de braços dados comigo e com minhas possibilidades.
Aí dizem que não levo as coisas a sério, e espero permanecer assim pra sempre. Mas acredito já estar confeccionando realidade.
Tive meu momento filho também, parti com meu pai para um “mini mochilão” de moto.
A cidade e as serras me deslumbram. Ta bom, foi o Arnaldo Baptista que falou isso (aliás, vou vê-lo amanhã!). Primeiro são prédios, depois casas, asfalto, terra e por último, gente. O homem rasgou o bucho da floresta, comeu terra e se estabeleceu em diversos confins, como em Vargem Grande, onde meu tio tem um sítio. A água ainda é cristalina, o céu também. Os morros tem desenhos difíceis de explicar, paisagens modernas: grama com alguns lances de árvores, Artigas se orgulharia. Ao fundo, florestas brotam como brócolis gigantes. Aliás, brócolis tem plural? Fica a pergunta.
Fomos de reencontro ao essencial, a energia campestre. Meu pai sempre valorizou o encontro com a natureza, o que prova que o homem não perde sua raiz. Acredito que as próximas gerações também o farão, como um instinto genético, mais do que um hábito.
Depois descemos a serra rumo a Ubatuba, debaixo de neblina. São aqueles momentos de felicidade que as fotos não nos assaltam, andar na placenta do ar. Tudo some como se nunca tivesse existido.
Chegando à praia, Deus estava novamente lá, lambendo os pés da areia. Rolava, brincava no pó da fertilidade, divertido e divino. Talvez ele seja o Dorival Caymmi.
Meu pai resignava-se à beleza do momento, aquele que ocorre todo o dia, o dia inteiro, mas que para o turista é único: a maré.
Às vezes fazia o papel de filho, às vezes o de amigo, o que mantinha a gangorra da minha idade. Porém um dos fatores me alegrou: eu ainda sou um filho.
Comecei a sentir falta de me sentir igual, meus amigos. E, para abalar a estrutura, me liga o mais querido, que estava distante.
Lembrei de tudo o que aconteceu com a gente, senti sua presença no que eu sou, logo o coração se enche de imediatismo, próprio da nossa geração. Então, amei ainda mais o tempo, que está vivo e a favor da gente.
Depois encontrei o meu casal preferido de amigos e São Paulo ficou muito mais viva para mim. Ta ali algo que deveria ter se encontrado antes, são dois pólos de um mesmo cosmo: a Zona Leste, o descompromisso, a harmonia paralela. Se a civilização recomeçasse, queria que elegessem os dois: Adão e Eva reiniciando um mundo abstrato.
No mais vi gente que some sem saber por que, um buraco que engole gratuitamente uma senhora de 74 anos, o moço mal-humorado que morava comigo (este não necessita de metáforas), um ônibus com três gomos e muitas mentiras gratuitas. Crianças ainda brincam na rua (inclusive na Luz e no Bom Retiro), os gays ainda são minoria, masturbação não causa espinhas, não é preciso ser sério para ser adulto.
Vi minha família unida em torno de minha mãe. Eu vi minha mãe, discurssei para ela, e fiquei feliz por ela ser contemplada depois de tantos anos de luta contra o preconceito com alegria. Eu vi meu padrinho e, sem explicação, isso me emocionou. Eu vi meu pai emocionado ao reencontrar-se com o passado. E toda a existência, sem nenhum grande motivo, fez sentido.
Meu pai me ensinou o silêncio sábio, minha mãe me ensinou a verdade dos gestos, meu primo me ensinou a paternidade (e juntos, me reensinaram a molecagem), meu melhor amigo me ensinou a igualdade, o casal de amigos me ensinou a perfeição das polaridades e eu me ensinei a escrever para me entender. Agora tenho olhos para ver o dia de amanhã. Feliz Aniversário, São Paulo.
Quinta, 25 de janeiro de 2007
01:35 da manhã