“O mundo precisa de mim,
o mundo precisa de nós,
o mundo quer é ser feliz,
o mundo desatou os nós (?)
Oh, 54 Blues, 54 Blues (ad eternum)”
(54 Blues – 54 Blues)
- Eles não são melhores que eu!
- São sim, querido, são.
- Mas não era pra ser assim, eu fiz tudo certo… então quer dizer que mesmo se eu fizer tudo sem a menor sombra de erro eu ainda vou ser pior que eles?
- Sim.
- Por que o seu sim é tão cruel?
- Porque deve ser assim. Agora dorme, vai.
- Você não me ama mais, né?
- Talvez eu te ame ainda mais quando você souber lidar com a derrota. Agora dorme.
Por que ela insistiu tanto em ressaltar minha incompetência? Que falta de sensibilidade… Eu vou perdoa-la? Porque se eu o fizer, vou estar assumindo a falta de talento. Ou o excesso de orgulho.
Meu mundo caiu. Há dois anos atrás eu tinha todas as portas do mundo abertas, eu era pleno. De repente, eu nem senti, foram se fechando a cada vez que eu descobria uma deficiência.
Vi uma moça no metrô, cara de funcionária pública, lendo um livro de auto ajuda. Ela tinha as linhas da boca baixas, cara espancada pelo sono de dias, meses, talvez séculos. Olhei pra ela e comecei a me gabar. Eu, um exemplar raro da espécie, fina cultura, fino trato, comunicativo, talento nato, na boca do elogio. Eu podia muito bem ser o autor daquela enganação que ela lia, arrebanhando a alma dela sem massagear por demais o intelecto, sem confronto. Ela imploraria com veemência pra ter um pedaço meu que ela mantivesse por propriedade, um pedaço de unha, uma pelinha do canto da boca que seja. Seria como um território fértil onde ela cultivaria a sua pequenina horta de idéias, com vegetais que não vão muito além do chão. Eu era um jacarandá. Ela, uma hortaliça.
Nisso, quando dei por mim novamente, reparei que esta mesma moça me encarava com desprezo. Natural, ela estava de pé, lendo, com uma mala no ombro esquerdo que esticava o braço que alcançava a barra de ferro. Tinha dado lugar para uma senhora sentar. E eu, sentado no banco preferencial dos idosos, segurando sequer um volume.
Eu, exemplar único da espécie humana, não tive primeiro a capacidade de observar o ambiente como um todo, e ainda por cima de compreender a sinalização visual. De quebra, meu caráter foi junto com tudo isso.
- Não acredito que você não teve a capacidade de levantar e chamar a moça pra sentar depois de tudo isso!
- Ah, não sei, ela não era idosa também…
- Claro, mas ela era um ser humano!
- Sim, eu também.
- Não, você é uma mente humana, ultimamente não anda “sendo” muita coisa não…
- Porque você é sempre desagradável?
- Porque você foi desagradável primeiro, no metrô.
- Por isso que eu te amo.
- Hein?
- Porque você é todo dia um desafio.
Sim, eu amo ela, principalmente quando ela me põe pra baixo. Porque ela sempre descobre minha verdade mais profunda. Quando estou com ela é aquilo, só aquilo e mais nada. Não sinto agonia, não estou perdendo tempo, não estou frustrado. Só quero aquilo e pronto, não importa o quanto será rentável ou popular. Ela me põe no lugar.
É difícil aceitar um lugar nessa imensidão, sentar nesse posto com conforto. Sempre se quer mais, sempre dá a sensação de que você poderia estar fazendo aquilo melhor que a pessoa que está na atual função.
É como a velha ladainha do músico frustrado que liga o Faustão e vê uma recém-celebridade estourando um sucesso. “Eu fazia bem melhor que ele”, então por que você tá sentado do meu lado nessa casinha na zona leste comendo macarronada de domingo?
Eu tenho medo, muito medo de me frustrar. Mas quando ela fala que eu sou um derrotado, aquilo me soa tão bem humorado. Aí eu lembro de toda minha trajetória de ego a cada palavra de incentivo recebida, a cada elogio, a cada prêmio conquistado e tudo isso cai por terra tão rápido quando você faz uma coisa errada e não tem coragem de consertar, mesmo tendo a real possibilidade.
A moça do metrô é bem melhor que eu. Ela sim, pode mudar o mundo ou acabar com uma guerra. O meu máximo é se gabar de ter feito uma inutilidade criativa que pode entreter. Mas meu amor sim, esse me faz ser a melhor pessoa do mundo.
Obs: essa é uma crônica fictícia.