Posts de Julho, 2007

Na boca do elogio

Julho 15, 2007

“O mundo precisa de mim,
o mundo precisa de nós,
o mundo quer é ser feliz,
o mundo desatou os nós (?)
Oh, 54 Blues, 54 Blues (ad eternum)”

(54 Blues – 54 Blues)

- Eles não são melhores que eu!
- São sim, querido, são.
- Mas não era pra ser assim, eu fiz tudo certo… então quer dizer que mesmo se eu fizer tudo sem a menor sombra de erro eu ainda vou ser pior que eles?
- Sim.
- Por que o seu sim é tão cruel?
- Porque deve ser assim. Agora dorme, vai.
- Você não me ama mais, né?
- Talvez eu te ame ainda mais quando você souber lidar com a derrota. Agora dorme.

Por que ela insistiu tanto em ressaltar minha incompetência? Que falta de sensibilidade… Eu vou perdoa-la? Porque se eu o fizer, vou estar assumindo a falta de talento. Ou o excesso de orgulho.

Meu mundo caiu. Há dois anos atrás eu tinha todas as portas do mundo abertas, eu era pleno. De repente, eu nem senti, foram se fechando a cada vez que eu descobria uma deficiência.

Vi uma moça no metrô, cara de funcionária pública, lendo um livro de auto ajuda. Ela tinha as linhas da boca baixas, cara espancada pelo sono de dias, meses, talvez séculos. Olhei pra ela e comecei a me gabar. Eu, um exemplar raro da espécie, fina cultura, fino trato, comunicativo, talento nato, na boca do elogio. Eu podia muito bem ser o autor daquela enganação que ela lia, arrebanhando a alma dela sem massagear por demais o intelecto, sem confronto. Ela imploraria com veemência pra ter um pedaço meu que ela mantivesse por propriedade, um pedaço de unha, uma pelinha do canto da boca que seja. Seria como um território fértil onde ela cultivaria a sua pequenina horta de idéias, com vegetais que não vão muito além do chão. Eu era um jacarandá. Ela, uma hortaliça.

Nisso, quando dei por mim novamente, reparei que esta mesma moça me encarava com desprezo. Natural, ela estava de pé, lendo, com uma mala no ombro esquerdo que esticava o braço que alcançava a barra de ferro. Tinha dado lugar para uma senhora sentar. E eu, sentado no banco preferencial dos idosos, segurando sequer um volume.

Eu, exemplar único da espécie humana, não tive primeiro a capacidade de observar o ambiente como um todo, e ainda por cima de compreender a sinalização visual. De quebra, meu caráter foi junto com tudo isso.

- Não acredito que você não teve a capacidade de levantar e chamar a moça pra sentar depois de tudo isso!
- Ah, não sei, ela não era idosa também…
- Claro, mas ela era um ser humano!
- Sim, eu também.
- Não, você é uma mente humana, ultimamente não anda “sendo” muita coisa não…
- Porque você é sempre desagradável?
- Porque você foi desagradável primeiro, no metrô.
- Por isso que eu te amo.
- Hein?
- Porque você é todo dia um desafio.

Sim, eu amo ela, principalmente quando ela me põe pra baixo. Porque ela sempre descobre minha verdade mais profunda. Quando estou com ela é aquilo, só aquilo e mais nada. Não sinto agonia, não estou perdendo tempo, não estou frustrado. Só quero aquilo e pronto, não importa o quanto será rentável ou popular. Ela me põe no lugar.

É difícil aceitar um lugar nessa imensidão, sentar nesse posto com conforto. Sempre se quer mais, sempre dá a sensação de que você poderia estar fazendo aquilo melhor que a pessoa que está na atual função.

É como a velha ladainha do músico frustrado que liga o Faustão e vê uma recém-celebridade estourando um sucesso. “Eu fazia bem melhor que ele”, então por que você tá sentado do meu lado nessa casinha na zona leste comendo macarronada de domingo?

Eu tenho medo, muito medo de me frustrar. Mas quando ela fala que eu sou um derrotado, aquilo me soa tão bem humorado. Aí eu lembro de toda minha trajetória de ego a cada palavra de incentivo recebida, a cada elogio, a cada prêmio conquistado e tudo isso cai por terra tão rápido quando você faz uma coisa errada e não tem coragem de consertar, mesmo tendo a real possibilidade.

A moça do metrô é bem melhor que eu. Ela sim, pode mudar o mundo ou acabar com uma guerra. O meu máximo é se gabar de ter feito uma inutilidade criativa que pode entreter. Mas meu amor sim, esse me faz ser a melhor pessoa do mundo.

Obs: essa é uma crônica fictícia.

uma observação

Julho 10, 2007

Para mim, tudo tinha que fazer sentido. Afinal, as coisas se movimentam, e tudo que se movimenta tem um sentido.

Aí eu descobri que estava enganado, e esse engano me confortou. Muitas vezes as coisas que se movimentam não tem sentido, apenas seguem uma direção. O sentido não pertence a quem trilha um caminho, mas sim à quem sabe o que vai encontrar no final deste.
É isso aí, cada um na sua convicção. Mas que pelo menos tenha uma.

Mitopraxis

Julho 3, 2007

Exaurido pela exaustiva convicção positiva, enviei ondas magnéticas aos confins do universo buscando um eco de vida virgem. Vinde a mim energia do mundo, que sobe pela minha coluna e se desdobra no pulso da artéria.

Porém só me chegou de resposta uma vibração nebulosa. Veio e me recebeu, como uma figura humana. Me carcomeu como uma traça, até sobrar só, a carne pela carne.

Nisso me vejo tristonho, nisso me vejo medonho. Mas tenho a plena confiança de que é o primeiro passo pra estar perto do que realmente importa: o onipresente. Você chama de Deus? Eu também, porém outras pessoas não, mas a filosofia é a mesma. A força que está e a tudo rege e corrige os desequilíbrios. É como uma obra de Rodin, são várias vozes de um só corpo que encerram o equilíbrio em si, fazendo essa desconcertante harmonia. Dissonante.

Tive vários desvarios esses dias e espero não sair pela tangente caso repetir-se algum deles. Todos trazem a tona o vazio de uma vida reprimida por uma imensidão que não se domina. É querer chamar as pessoas e não ter voz, é querer correr e não ter pra onde. É dormir imaginando que o amanhã não será provisório.

E o temporário se torna o eterno esperar. É tocar a vida aguardando o impalpável. E pensar que o tempo é uma esteira que não volta. E pensar que a saudade me enfraquece e vai ficando longe como um ponto de luz em uma estrada escura. E eu estava lá, na luta, cambaleando pra ainda afirmar a valentia de um homem de honras antigas.

O meu mito é uma mentira. Foi criado tão e só para tentar resolver a dor da dúvida. Quedada a máscara, agora existe um homem tentando o tempo todo se explicar. E que manda ondas para os confins do universo, quando deveria procurar o pedaço deste que existe no seu mais profundo interior.

Ó metade afastada de mim, lava os olhos meus.