Posts de Setembro, 2007

Me Against the Music

Setembro 10, 2007

”Hey Britney, i wanna see you out of control”. É Madonna, você conseguiu. A saga da maior bubblegirl da história é um fato social digno de comentário, assim como sua luta contra a música (literalmente).

            Belinda Spearson (nome de sua 1ª encarnação) criou-se como herdeira legítima de Mickey Mouse. Nos braços paternais do amado rato forjou a figura que iria alça-la aos imensos palcos instalados em igualmente imensos estádios, fazendo juz a igualmente imensa pretensão paternal de massificação.

            Não, Mickey não é maquiavélico, talvez somente quisesse um bom exemplo a uma América perdida em sua identidade, cumprindo o vazio dos dias industriais, das famílias que estampavam as caixas de cereal. Ser parte de uma onda, uma catarse, uma histeria controlada dentro de seus ideais de uma sociedade pacificamente instalada dentro de um cercadinho (quem já assistiu Mulheres Perfeitas me entenderá).

            Britney então foi feita do mais puro plástico (Suzy morreria de inveja), em uma fôrma banhada a leite de cabra, recheada com a doçura do chiclete e a pureza do feno do Texas. Tinha uma singeleza loira encoberta de rudes traços do sul, do caricato americano, um quê de Super Size Me em sua filosofia. Seu “Hit me baby” tinha a imoralidade puritana, a conotação perfeita, o agridoce, o tempero pop. E realmente deu certo.

            Sua branquitude primeiromundana ganhava cada vez mais impavidez, ao passar de sucessos que discutiam relacionamentos difíceis, complexos da adolescência, ou aqueles que só pedem pra você mexer a bunda (o que não deixa de ser necessário, e atualmente no pop é função primordial).

            E as pessoas realmente queriam mexer a bunda (mais do que chuta-las, como nos tempos do grunge). E mexer a bunda envolve a libertação de uma adolescência fingida (vide Grease), de um espaço pessoal reservado, das mesas na festa de aniversário. O mundo é uma pista de dança em plena orgia tribal, e quem iria querer um ídolo virgem?

            Então Britney se livrou da adolescência (engraçado, foi da noite pro dia) e de todo o conjunto de apetrechos que envolviam sua castidade (sem maiores especificações). Em “I´m a Slave 4 U” abandonou também a melodia (tá bom, isso foi ironia), e começava a embranquecer os tratados criados por Missy Elliot e que seriam sacralizados com Timbaland (eu realmente gosto dele). Abandonando a carapaça, veio a transparecer novamente a Belinda, o ser humano, aquela que erra, que acerta, que vai no banheiro, que transa no carro, etc.

            Mas parece que ela mesma se incomodou ao perceber que o reflexo no espelho era…ela mesma. E que papai Mickey agora era um cafetão machista.  Despida até demais, perdeu a estribeira do que era imagem e do que era real. As 2 dimensões, até então paralelas, se cruzaram e irradiaram o espaço infinito de ser um  simples ser e assumir toda a responsabilidade por isso.

            Saiu da música para virar história, principalmente nos tablóides e periódicos, afinal, uma notícia desse teor não dura tanto tempo. Realizou uma série de ações para muitos incompreensíveis, desconexas. Se casou em Las Vegas, deixou seu filho cair, raspou a cabeça, saiu bêbada da balada.

            Agora analisando com dureza, o que era mais doente: ser um pré-moldado tão puro como estúpido, ou uma mulher que erra, mas existe nessa atmosfera? E porque ninguém se choca quando a Amy Winehouse faz pior ou a Pink assume que inciou a vida sexual aos 9 anos?

            Para mim, a Britney é uma vitoriosa, embora ainda esteja em recuperação. Dentro de sua branquitude careta, conseguiu ser escandalosamente inconseqüente fazendo muito menos do que a Amy ou a Pink fazem. E o melhor: nem cantar direito ela canta.

Ainda por cima colocou uma peruca e foi à luta, agora interpretando aquela que um dia ela realmente pensou ser, a americana perfeita. Ela está no domínio, só falta cair em si e descobrir isso.

            Deus abençoe Britney Spears. E a Madonna sempre sabe o que fala, ô mulher porreta.