Posts de Novembro, 2007

Assombrado, assombroso.

Novembro 5, 2007

Clareia o sol. Vai preencher de luz a invasão do ambiente. Agressiva, rebelde, sem precedentes. No canto da cama, eu. No canto de luz que rebate, arde, reverbera, frequencía. E esta onda corta o tempo e o espaço malfadado, corre a vida como se já não houvesse seqüência, sem saber o fim.

A gente nunca sabe o fim. Se soubesse, não o esperaria. Ou talvez seja uma visão demasiadamente limitada daquele que sempre viveu sobre a lógica da pedra.

A rocha quebra na praia, espalha minérios na espuma da criação. Minha tristeza quebra em um sino, que dá vida à assombração. Assombrado, assombroso.

Sombra, sono. Quebrando na ladeira, no balanço da matéria mecânica. O negativo do sol, sou eu, o contrário da extensão, que rasteja e esconde a beleza sincera do dia. Espalha na morosidade, que vem de uma insatisfação já esquecida.

Eu nem me lembro a última vez que sonhei, talvez porque o sol fosse forte demais. A mente neblina no tédio de esperar gerações de prédios, de invasões e de órgãos públicos e religiosos passarem pela janela. São aqueles que controlam o circo dos algoritmos. Controlam o controle, e sabem como construí-lo. Mantém a imensa massa criativa na fila de espera afetiva. Constrói o traçado de uma vida no esquadro.

Mas sonhos não envelhecem nem expiram. Ainda exalo o ar das independentes gerações, que não viverão sobre a égide desta imensa e ensolarada repartição pública. A cidade de São Paulo.

O homem desmedido

Novembro 5, 2007

A história começa com um homem desmedido. Nada cabia em si, nada se conformava. Este homem se sentia desconfortável no seu apertado terno, no aflitivo nó da sua gravata, no amor sufocante de sua mulher, na desmedida doçura de seus filhos. Andava a passos largos que se conflitavam com a compridez de suas pernas. Tudo tinha um limite e todos aceitavam isso da maneira mais pacífica. O seu espaço limitado de ação, o limite do livre arbítrio. Inconcebível.Queria acelerar seu carro, mas ele tinha um limite, e sabia que se o ultrapassasse, encontraria outro limite, o de sua vida. Sabia que para manter a sua qualidade de vida, teria que se manter no limiar de uma rotina rigorosa de trabalho e alimentação saudável. Gostava de correr riscos mas sabia que este só existia por causa da barreira limitante que o cercava. Não sabia nem se gostava mesmo ou era condicionado por tantas limitações.Se coçava como se sua alma fosse parir um monstro. Era a quentura que carcomia sua carne e arranhava com fúria felina suas entranhas, rasgava suas tripas com desprezo de cozinheira sobre as vilosidades de um animal. E apesar de ser agonia, isto era cotidiano e quase natural.Ia assim aos piris e paques para a Igreja. A eterna demora da missa, o padre balbuciando em um frenesi contido pela educação que se traduzia em um salivar abundante, fervilhante. O perdigoto que flutuava pelo espaço sagrado até se destruir contra o chão e absorver o impacto na mutação da tensão superficial. Tensão. O mundo estava tão amarrado aos seus limitantes, que criavam mais limitantes e aumentavam e iam cada vez mais se esbarrando, se enervando, se conclamando, se preparando. Aquele perdigoto podia ser a caixa de pandora. Podia ser uma bomba atômica. E o ying yang girava e se tornava um círculo nebuloso, cinzento. Até seus princípios se incomodavam por saberem que são princípios pois há o limitante de um fim.Um dia este homem cortava a cidade com seu carro veloz quando a Terra parou. O motor fundiu, o trânsito travou, os bárbaros avançavam com suas tochas. Vinham com milhares de cavalos de potência que se limitavam por aquele incidente e iam acumulando poder como se não houvesse amanhã. Nisso o vendedor de chocolates já aproveitava o ensejo para vender um pouco de calma e as pessoas devoravam os doces como se mascassem parafina, ouvindo sei lá que música, e já não prestavam atenção no barulho nem queriam ordem, os pensamentos gritando como uma bolsa de valores. E o homem sentia que o muro ia ceder em cima dele.Pela primeira vez ia ver a sociedade passar dos seus limites. Porém de uma maneira não tão confortável. Um ilimitado instinto o pegou pelo braço e saiu a correr antes que a bomba estourasse. Olhava para trás e via o exoesqueleto de um antigo homem que abandonava o limite da carne para obedecer ao invisível.Chegou a uma estação de metrô. Esperou a fila, comprou seu bilhete, passou pela catraca. É preciso ressaltar este acontecimento: ELE PASSOU PELA CATRACA. E sentou calmamente no seu banco, foi pra casa, e viveu por mais longos 40 anos. Se foi feliz, não sei, mas afinal, quem se declara integralmente?Desde então, sempre que passo pela catraca reflito sobre esse causo urbano e descobri o quanto ela vale, independente deste valor ser positivo ou negativo. Mas ela te modifica. E todo dia parece que a gente não sente como o objeto tem vida, e a gente é que é indiferente.