Café na Colina

By nenenetz

A colina verde como a melodia, como o teclado dos teus belos dentes que se abrem em jardim, como um final feliz. Se todos vocês pudessem ver este sorriso, nem precisaria escrever este texto, de tão exato, fiel e caloroso que eu seria.

            Tomar café da manhã é uma arte, sabe vocês, que só se aprende quando se está apreendido. Já se sente o desenho do vapor do café ao pé do ouvido, se espalha sedosamente a manteiga no pão. O sabor traz visões que somente o foco da luz da manhã sabe produzir.

            Você acordou descabelada, assim como todos eles fora de esquadro. Desfaceladamente cintilante, as bochechas se rejuntam ao pé dos olhos e arma a larga rede do amor.

-         Adoro suco de café. – essa é ela.

-         Você tem inveja porque o meu café sempre rende mais. – esse sou eu.

-         Realmente, passei anos na análise tentando resolver esse trauma.

-         Menina, menina, movida a cafeína…

-         Você tá mais pra pão com manteiga…

-         Crocante.

“Não, cremoso”. Ai, ela é boa nisso. “Abre a janela querida, eles já acordaram.” E se vieram como um exército de zumbis, depois de um longo dia de amizade intensa. Lavam um por um o rosto na água que sai ansiosa da torneira, como se tivesse um nobre fim. Outros ficam ao sofá com cara de quem rememora silenciosamente um dia genial.

Mas qual a genialidade em ser humano, será atuar ou observar? Ou talvez interagir? Eu nunca consigo distinguir ou realmente categorizar as coisas que realmente me fazem feliz. Tentei fazer com que eles se sentissem assim também. A minha menina cafeína entende o que eu falo, quando a gente se beija, ou quando eu toco uma bela música em um lugar sem asfalto. É silêncio que corre nos poros, um comichão divino e a divindade tem 2 polos. É homem e mulher, dia e noite, feliz e triste, arroz e feijão.

Aí vem uma multidão de seres com feições alienígenas, olhos de néon, respirando nitrogênio e comendo clorofila, dizendo que a dualidade é brega ou muito redutiva. E eu digo “Queimem!” e todos eles viram tochas de fogo implodindo como estrelas cadentes na Rua Augusta. O concreto queima e o fogo é verde, como a melodia que continua serena e os meus passos que ditam o espevitar do fogo. Adoro a imperatividade sem império. E a gente continua a se beijar enquanto o reino da pós-modernidade rui escandalosamente calado.

E a minha felicidade continua ao abolir todas estas coisas que não preciso para viver, e que podem viver sem eu precisar, este escarcéu incendiário só ocorre por onde minha vida passa, no verbo das histórias que correm atrás dos meus olhos. E aí vive minha felicidade, atrás dos olhos. Quando as pessoas sentam na mesa e estão todas de fato lá, vestidas e desarrumadas como alguém que voltou da guerra da fraternidade. É uma vibração, um ruído rosa que corre entre a gente e brinca com nosso estômago. Fecho os olhos e danço com as cores.

Arrumar a mesa do café, de fato levantar satisfeito é um despeito contra a insensatez da humanidade.

 

Esta história não é fictícia, porém baseia-se em fatos reais.

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