Posts de Maio, 2008

Os Mimos

Maio 19, 2008

Era aquela de casa de cheirinho macio, parede rosa, mesa de tábua, fogão de 4 bocas. Nessa andança até a cozinha, olha pra porta do quarto e lá está: loira, branquinha, quase um cristal. Cristina. Semblante de concentração, está fazendo arte com seus tecidos.

Fecha os olhos ao palpar a textura de um fio mais árido, e é como se sentisse o trançar da rede, o vento da praia, o corpo moldado e folgado, suspenso no ar. Mas não se deixa levar e opta por um mais fino, mais bebê.

- Minha cristalina! – ela olha e desabrocha – Tua intuição me vigia! Quando fecha os olhos, abre a visão da palma da sua mão. Sempre a olhar no tear do futuro…

- Diga o que me trouxe além de poesia – e se ri.

- Trouxe…pão! Hum…ah, tem uma garrafa de vinho te esperando também.

- Que coisa juvenil, querendo me embriagar… primeiro embriague de sono aquele bebê que tava te esperando, ta ouvindo ó? – e o neném solta aquele “uéééé´” profundo como se soubesse a hora do pai chegar – Vai, vai! Que enquanto isso eu termino de arrematar essa peça.

- Sou seu servo.

E Antônio vai pro quarto verde pastel (não sabiam se era menino ou menina) se eximir do dia que passou longe de sua menina. Suas meninas.

- Bebebebebê! Cadê papai? – e o neném já se afoba – Aqui ó, voltô do mundo pra ficar com você, meu amor – e começa a cantar o Leãozinho que ela adora – “Gosto muito de te ver Leãozinho / caminhando pelo sol…” – e o neném fica resignado ao sono tão inerente a sua posição inconscientemente humana, dorme e sonha com o mistério da vida.

Um pequeno leão. No fresco verde da pastagem, tropeçando na sua pomposidade, brincando com seu desajeito. “o teu coração é o sol / pai de toda cor”, doura o tenro roseado do bebê, como a casa de cheirinho macio, estante com tevê e fotos ao lado, estas mesmas que marcar a presença de uma casa ao léu.

- Tônio, vem cá. – fala da cozinha, encostada no móvel.

- Oi, Cristal, digue, meu bem.

- Sê sabe que aquela loja na praia num deu muito certo né?

- É mesmo? Aquele povo é ignorante, não entende sua arte. – e pega a margarina na geladeira.

- Então, nem é tão questão disso, tá faltando organização, sê sabe que eu num entendo quase nada dessa parte administrativa…

- Pois é, mas essa parte é de menos quando se tem essa mão mágica, esta precisão de bom gosto… – e pega nas mãos cristalinas.

- Antônio, não. – e se afasta – Eu preciso de respaldo Antônio, ajuda. Se existe tanta mágica, alguém precisa dar valor pra ela, botar uma etiqueta. Você bem que podia se propor a fazer algo palpável!

- Você quer o quê? Que eu morra em uma repartição? – e se zanga.

- Não, queria só que os mimos que você me dá sejam pagos por você, e não por mim mesma!

Nisso um silêncio gela a cozinha. O bebê dorme. O leão cresce impetuoso, o sol lhe doura a pele. As fotos estão mais solitárias do que nunca. E o rosa parece, cada vez mais, uma ilusão.

Saber, verbo intransitivo

Maio 14, 2008

A mente mente. Diz que faz mas desfaz logo a frente, e o desembaraço fica pra trás. Eu olho o pensamento como o ego que media esta relação, e lá está. Um monte de nada que é alguma coisa, alguma coisa do monte que é nada.

É aquela parte do objeto que você vê mas não o identifica, ou aquele monte de coisas sem contexto, tipo a casa da Hebe. Bom… se bem que a casa da Hebe tem contexto, seria ela própria, enquanto entidade.

Aquele aquilo, que ficou na vontade, uma grande idéia…que perdeu o ideal. Não me preocupo em entender, só não quero me perder de quem eu era no começo. Talvez pra saber quando é o fim, se é que existe final.

Ontem assisti um pedaço de Waking Life, na passagem a moça dizia que as palavras são inertes (tradução esboçal de Gabriel Garbulho), um código que nunca expressará por si só a profundidade de um sentimento sobre um algo ou uma ação. Sendo bem claro, se você sentiu dor, só você entende sua dor, pois ela carrega o seu contexto e a sua história, onde aprendeu o que é dor. Quando for passar a mensagem para outra pessoa, a dor dessa pessoa será embutida como conceito para entender a sua. Por isso que quando a gente ouve um conselho sobre um sentimento, só estamos relembrando o que a gente já sabe.

O que você sabe sobre mim? Já viu o meu vídeo, leu o meu blog, viu o meu show, foi meu amigo? E toda essa informação foi travestida de você para ser resolvida em um “eu sei como é que é”. A identificação é uma coisa curiosa, pois partindo desse princípio somos rochas esculpidas por nosso aprendizado. A alma em uma noz, que grita e ecoa a própria voz.

A gente nunca sabe nada sobre ninguém, e o que a gente sabe nunca pára pra nos explicar. Reitero Clarisse Lispector:

“Não se preocupe em entender, viver ultrapassa todo o entendimento”

Talvez entender seja um processo para a solidão. Você entende e não quer mais explorar: a rocha é mais autosuficiente ainda. A noz está cada vez mais enraigada, e sufoca a semente da criação que mora dentro de sua escuridão.

O grande processo para se recriar é nunca saber por completo. Saber demais é um perigo, pois saber é intransitivo. E a vida é permanente transição. Como a mente que continua a mentir.

Pablo, o menino simples

Maio 14, 2008

Pablo = Pedro = Significa pequeno e indica uma pessoa com muita disposição e um otimismo contagiante.

Meu livro infantil, a Marina fará a ilustração, se tudo correr bem.

O nome dele é Pablo porque nasceu pequeno pequeno, como uma pedrinha no rio. Diz seu pai que colocou pó de nuvem nos sapatos, e o garoto saiu ligeiro na corredeira, crescendo e mexendo em tudo que ele queria. Olhava os grandes narizes e orelhas que nunca param de crescer, os colares da mãe, os cremes para a pele que pareciam tão apetitosos, gostava de desenhos que ainda não entendia.
Queria ter o cabelo verde e fazer barulho de planta quando bate o vento, aquele chiado do mato pedindo silêncio. Ouve música o tempo todo e nem precisa tocar, Pablo é sua própria orquestra. E dança primeiro mexendo o ombro, depois espalha o comichão pelo corpo, e dá pulinhos e se diverte, e de repente todo mundo quer ser livre daquele jeito.
- E aí Pablo, como vai essa força hein? – esse é o Tio Pedro, o tio mais velho.
- Tudo tudo, tio! – e aperta o Pablo que nem um boneco de massinha.
- Tudo o quê? – olhando desconfiado para a cara do menino.
- Tudo tudão, tipo um zilhão, né Pablo? – esse é meu pai, ele riu que nem quando ele canta com a mamãe, com boca de piano. E não precisa me cutucar pra fazer rir.
- Tudo deeeeeesse tamanho, porque hoje eu vou no parque e vai ser muito muito legal.
- Mas você só vai ver terra Pablo, às vezes pode ter um parquinho, mais nada.
- Eu gosto de vento, tio Pedro, num agüento mais ir pra geladeira.
Pedro achava que o shopping era uma geladeira: sempre frio e tudo sempre estava do mesmo jeito quando ele voltava, as roupas no mesmo lugar, e os atendentes sempre com cara de quem espera alguém que não chega. Inclusive um dia não queria mais sair porque pensou que lá dentro ele não ia crescer nunca, só sossegou depois que o papai colocou mais pó de nuvem nos sapatos. Saiu esfumaçando, apitando, e dançando como um trem na curva, tocando bateria no trilho, com o sol na cabeça. Bem sabe seu pai que o pó de nuvem não pode ser usado em dia de tempestade.