A juba loira balança na praia, como uma onda de fogo, um foco de civilização.
Leo não se sente sozinha na praia pois consegue ouvir o chiado da onda, que beija seu pé, que no final das contas, é o seu destino.
- Eu tento entender o que eles falam e vem a onda, e fala tudo ao contrário. – diz Léo ao léu. Diz Léo pro céu. Pro seu céu que é o mar.
A menina tem poesia no coração, embora as manifestações só ocorram no silêncio. E no sorriso quando dança, ou nas demonstrações de carinho tão minimalistas e definitivas.
- Léo, me ajuda nesse arremedo! – grita a mãe do quartinho.
- Arremeda sua vida primeiro, Cris!
- Ê menina, tava de papo para o mar é?
- Tava lá, agora vô tomar banho, me aguarda que essa rede vai virar uma lona!
- É só um arremedo, leaozinha! – e se ri com a garra da filha. Uma garra pura, de instinto.
Léo não tem véu, seu corpo é o céu. E seu céu é o mar. Entra no chuveiro, e é o chuveiro quem se banha, naquele sol imenso, no pêlo, na costela que se expõe na pele, nos peitos de Leoa.
A água é tão macia que arranha. Ela guerreia com as gotas que explodem na pele. Um silêncio no pensamento, vindo do papo pro mar. Não quer mais pensar.
- Vai Cris, dá o fio que eu continuo.
E Cris dá o fio. E vai andando enquanto seu coração de carretel desfia. E Léo desafia o amor, não se entrega, mas também não nega.
- Cris, pega um copo de água pra mim.
E Cris caminha para o filtro, ao lado do velho fogão de 4 bocas pega um copo no armário da parede. O copo tem corações pintados de uma forma desordenada, com uma intenção de forjar um sentimento de classe média.
Volta pro quarto, encosta no batente da porta. “Gosto muito de te ver, leãozinho/ caminhando pelo sol…”
- Cris, pára, por favor.
- Léo, para de brigar com a poesia do teu coração.
Ela olha para a mãe, olha pro fio, e continua a entrelaçar. A atar os nós.
- Meu pai é o mar. – olha com uma objetividade assassina.
- Ele ia gostar muito de ser chamado assim.
Léo só larga o fio. Não se exalta, não se descabela. Só, sofre. Levanta, passa ao lado da mãe no batente, encosta a ponta dos dedos em seu braço, um carinho recolhido de anos.
- Mãe, eu quero conhecer o mundo.
- Já me acostumei a me arremedar. Não foi você que disse?
Os cristais são a própria luz que se prova material. Cristalina, invisível, pensa no que sentir na hora que se anuncia a ausência. E parece que mais uma Cristina se vai pelo mundo, como foi com a poesia dos cristais, e agora com a pureza dos animais.
Mas não foi Léo que decidiu, foi seu pai. Há muito tempo atrás, antes de Léo saber que o mundo é uma savana.
- Eu preciso descobrir do que eu sou feita.
- Se for assim, sou feita de saudade. – e sai.
Léo sofre.
- Mãe, eu to aqui.
- Não, não ta mais não.
No canto da sala assiste à cena um sabiá de madeira. Um mimo. Que canta todos os dias o amor que vive no invisível daquela casa. Enquanto os arremedos de Léo nunca vão cantar.