Posts de Setembro, 2008

O cantor está só

Setembro 9, 2008

Abdicar do amor é como abrir mão de ser algo que já era. É uma pessoa, um espectro que finalmente ficará agregado ao tempo.
O ato de desistir não é nada físico, não é um vaso que quebra, não é um grito. Minha desistência aconteceu muito depois de já ter perdido. Portanto a derrota não é algo que acontece, e sim uma situação que se aceita.
Mas não estou aqui para criar verdades, mesmo porque acabo de perder uma, e sim para contar uma experiência, pinçar um marco.
Alguém lá no fundo vivia letargicamente apaixonado, cantando a mesma música que embalou outro verão. Mas a música era tão bonita, que não se queria parar de cantar. Porém, esta mesma beleza tinha um verso fascista. O amor em que se acreditava não podia ser contestado, um muro isolou o palco, e o cantor estava só. Agora o cantor está só, mas a canção prega a liberdade.
Aí vem a questão: abdicou-se de um amor, ou do amor como fundação? Será amar um verbo intransitivo? Cai mais uma verdade. O amor talvez não seja uma força invariável, como um final de novela em que ele deve se concretizar. Prefiro acreditar que ele seja como Deus: um poder sem face, uma energia que guia as tuas ações mediante conselhos sutis. Não é um ser humano, e tão só um respirar, uma mordida de lábio, um desvario de prazer, um olhar de relance. Descobri tudo isso quando te vi de perto e você realmente estava distante, naquela bifurcação em que eu fiz a escolha errada.
Fazia muito tempo que eu não sofria tão nobremente, sofrimento de pedir perdão. Agora eu só quero plantar o meu drão, ressuscitar do chão, semear paz. E, não descarto se acontecer novamente, o amor será presente, e não um gesto que remonta ao que se desfez.

”Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”

(Memória – Carlos Drummond de Andrade)

por uma vida menos ordinária

Setembro 1, 2008

“Oh, baby, suporte,
Foi apenas um corte,
A vida é bem mais
Perigosa que a morte
Suporte, oh baby, suporte”
(Barão Vermelho – Baby Suporte)

Como o Barão Vermelho viril é bem mais legal. O Frejat anda extremamente brochante.

Enfim, não vim falar disso. Penso no quanto da vida a gente dispersa, e no outro tanto que a gente sofre com o que não foi feito. O maior complexo do meu pequeno mundo é a tal da lista de tarefas que oprime os dias e a paz dos mesmos.

Aí é incrível ver a paz dos outros e o rumo que eles tomam, com suas vidas estruturadas e bem encaminhadas dentro das oportunidades de negócio. E os interesses que se cruzam entre coisas objetivas e o que o dinheiro pode comprar, e o desgastado amor entre casais de roupa social dentro do metrô, e os garotos jovens tendo que fazer cara de decididos para as conquistas empresariais.

Esse é o meu pesar. A lista de tarefas é muito mais penosa quando você se vê à beira desse calabouço. Mas desde que eu trabalhava na Arcoiris luminosos (17 anos, são carlos, banda, vestibular, por do sol na janela) adestrei o meu olhar: “mantenha os olhos lúcidos”. E é preciso suportar o peso da lucidez tanto quanto o da criação, com a promessa de não se martirizar pela quebra da normalização das pessoas. Da borracha que apaga a vida daquelas pessoas em livros de empreendedorismo. Das imensas teorias da burocracia que são renegados a aceitar.

O dispersar é o tempo que se gasta sem fazer o que se gostaria estar fazendo. E é isso o que acontece o tempo todo por aqui. Viver para o paulistano quer dizer ganhar dinheiro.

Se você lê isso, encontrou isso no Google, enfim, chegou até aqui, é porque esse texto queria te encontrar. Dê um chute no patrão, seja natural, dê risada, fale menos senhor e senhora, não use camisa marrom. É um apelo por uma vida menos ordinária.