Abdicar do amor é como abrir mão de ser algo que já era. É uma pessoa, um espectro que finalmente ficará agregado ao tempo.
O ato de desistir não é nada físico, não é um vaso que quebra, não é um grito. Minha desistência aconteceu muito depois de já ter perdido. Portanto a derrota não é algo que acontece, e sim uma situação que se aceita.
Mas não estou aqui para criar verdades, mesmo porque acabo de perder uma, e sim para contar uma experiência, pinçar um marco.
Alguém lá no fundo vivia letargicamente apaixonado, cantando a mesma música que embalou outro verão. Mas a música era tão bonita, que não se queria parar de cantar. Porém, esta mesma beleza tinha um verso fascista. O amor em que se acreditava não podia ser contestado, um muro isolou o palco, e o cantor estava só. Agora o cantor está só, mas a canção prega a liberdade.
Aí vem a questão: abdicou-se de um amor, ou do amor como fundação? Será amar um verbo intransitivo? Cai mais uma verdade. O amor talvez não seja uma força invariável, como um final de novela em que ele deve se concretizar. Prefiro acreditar que ele seja como Deus: um poder sem face, uma energia que guia as tuas ações mediante conselhos sutis. Não é um ser humano, e tão só um respirar, uma mordida de lábio, um desvario de prazer, um olhar de relance. Descobri tudo isso quando te vi de perto e você realmente estava distante, naquela bifurcação em que eu fiz a escolha errada.
Fazia muito tempo que eu não sofria tão nobremente, sofrimento de pedir perdão. Agora eu só quero plantar o meu drão, ressuscitar do chão, semear paz. E, não descarto se acontecer novamente, o amor será presente, e não um gesto que remonta ao que se desfez.
”Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”
(Memória – Carlos Drummond de Andrade)
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