O sussurro do escuro do quarto

By nenenetz

“O tempo em minhas mãos é uma serpente alada, ela me leva e me mostra o fim do universo”. Meu deus, essa menina escreve um absurdo. Enfim, pequenas desilusões poéticas (e solitariamente sentimentais)… Enfim, coisa linda, procurem.

Fim de noite, começo de dezembro com cara de Alpha FM na madrugada chuvosa da Marginal Tietê. Marginalia imaginária, um rio festivo, envolto por um imenso Piqueri onde as pessoas desfilam compassividade (neologismo).

O escuro do meu quarto é um abismo, acho que o de todo mundo é. Capturar memórias é uma atividade deveras prazerosa, como se estivéssemos à margem do vetor que eles chamam tempo. Uma organização espacial de acontecimentos boiando diante da sua feitura, pulsando conforme o que se sente, vibração de de repente, sensação. Sem aspas, por favor, não vamos enclausurar as expressões.

Não tente industrializar os sentidos, não existem estímulos perfeitos. Nem as cores, nossa maior crença, são iguais. Todas as coisas geniais que vemos são pulsações, que cabe a você entender, comprimir, dilatar. O som, ondas que saem de um rabisco digital, e vão pincelando melodias, como desenhos, como abraços, como gritos, como alt-doors.

Comer vida, triturar o sabor destas ondas, se deleitar com o desprender de cada tempero, de cada elemento, de cada amor.

Eu aprendi a saborear a vida de um modo bastante peculiar. Antes comia mais que a medida, depois tentei comer o mais rápido que pudesse. Por fim, percebi o mais importante: estar ali, comendo. O mundo pára, todo o tempo é necessário para deglutir essa vida tão cheia de tons e significados. Signos. Cada um com sua carreira, e uma cesta de novidades.

Tudo isso quem me diz é esse escuro que não quer ver nada. Prefere o vazio do papel às letras, prefere o céu às cidades. E eu com a cabeça à torta e à direita, tentando conformar o mundo de emoções que gritam desesperadamente para entrar na minha porta.

Queria escrever melhor, mas escrever é fazer e não querer. Então faço o que tinha que fazer. E quero o que eu não tinha que querer. “Querer não tem critério!”. Ah, tem sim, teimosia. Mas pretendo morrer no dia que o meu querer for sério. Está escrito.

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