Posts de Janeiro, 2009

Eram os deuses matemáticos?

Janeiro 25, 2009

A vida é um troço tão surreal, que às vezes encuca saber o que me faz humano. Então vem um sentimento agridoce à boca que diz coisas belas e sujas, gostosas e mesquinhas.

O cenário é quase tátil. Escuro, moroso, a cor da parede pulsa limitadamente na sobra da luz da TV. Dentro do peito uma corredeira de coisas inexplicáveis que vão continuamente, não há entendimento, só existe o que vai.

Andando pela beirada desse rio corto pra cena de quinta em que eu falei algo que a mim impressionou.

- O amor não é uma pessoa. Não adianta achar que uma pessoa vai resolver a sua falta de amor sendo que você não lhe praticou nos momentos que você vive, com as pessoas que você vive. Amar é estar presente.

Quem me falou essa última frase foi meu primo Diogo. E quem ouviu foi meu outro primo Lucas. E tudo isso caiu pela cachoeira do tempo que tritura e transforma tudo em cinema.

Os karmas, as bênçãos, os inexplicáveis presentes da vida. Ou as inexplicáveis ausências. O não estar como forma de expressão, causador do vazio sem culpa, a doçura de um gesto cruel feito com ingenuidade.

E toda essa contagem de pontos espirituais que ninguém sabe quem contabiliza, mas que de fato tem uma lógica inatingível. Eram os Deuses matemáticos?

Mas Deus não é uma pessoa, mas tão somente uma sinergia, uma sincronia de suspiros, uma seqüência de acontecimentos que adquirem significados afetivos e criam a nossa corredeira, que se cruza com outras correntezas.

O eterno ir. Deus é cinema. E o agridoce cria os caminhos dessa correnteza que não deve se explicar. Um dia, se todas essas cenas e sentimentos forem escritos talvez façam sentido, criem um cara que tentou ser um cara. Enquanto não se oficializa, eu só quero caminhar. Continuar a tentar, ser o que nunca poderá se dizer: “eu sou”. Se quiser me conhecer, esteja lá.

Sono

Janeiro 24, 2009

Afetividades… Toda vez que pinta a vontade de escrever, geralmente estou abatido de um sono imenso ou no ônibus ou em qualquer lugar transitório.

Meu afeto é incorruptível. Assim como a vontade de dormir, insubornável. Amo vocês. Sono.

Descarrilhando trens

Janeiro 6, 2009

Meu Deus, eu amo a tecnologia. É curioso como um estéril fone muda a experiência já incontabilizada de ouvir Stevie Wonder no sofá à meia luz.

Sem merchand, mas já fazendo, Sony Walkmen, fabuloso (principalmente o estéril fone, ah, o fone).

E lá vou eu continuando a descarrilhar trens, quebrar a corrente dos vagos vagões.

- Gabriel, por onde você andou?

- Beirando a trilha do trem.

- Mas e a ponte, como conseguiu escapar?

- Eu não escapei, o trem escapou de mim. Eu olhei ele até o fim, a locomotiva me encarava como se ali escaldassem a dor de alguém calado. Eu olhei o mais firme que a minha hombridade pôde agüentar, e ele foi se desprendendo lenta e duramente enquanto tentava seguir a jornada. Dissonantemente relinchava no trilho jagunço, que agüentou um progresso que ia e vinha mas nunca ficou.

- Então você desmantelou ele com a sua mente?

- Não. Eu doei a ele toda a injúria contornada e retorcida que dentro de mim tinha virado uma obra de arte, o gesto poético de um vôo, a corrente de ar que transforma e congela os aspectos na sua torrente. Um olhar de desgaste que mais valia do que um olhar imortal ou brutal. O trem carregado não entendia aquele enfrentamento de um desprendimento monumental, e foi tornando-se tudo que a gente se torna, raiz e história. Cada vagão era uma lembrança plantada, um momento, uma coleção confusa e inacabada de segundos marcantes, mas que não faziam sentido, até se tornarem folhagem de um mesmo tronco. E o trilho já não tinha mais uma emoção itinerante, e sim uma sólida mata que não queria mais ser abusada pelo progresso alheio; um local em que, para passar, seria necessário entender o caminho.

- E por que você dificultou um caminho tão importante?

- Para as pessoas entenderem que o tato é uma forma de inteligência. E farei isso até que o mundo inteiro seja uma grande floresta.