A vida é um troço tão surreal, que às vezes encuca saber o que me faz humano. Então vem um sentimento agridoce à boca que diz coisas belas e sujas, gostosas e mesquinhas.
O cenário é quase tátil. Escuro, moroso, a cor da parede pulsa limitadamente na sobra da luz da TV. Dentro do peito uma corredeira de coisas inexplicáveis que vão continuamente, não há entendimento, só existe o que vai.
Andando pela beirada desse rio corto pra cena de quinta em que eu falei algo que a mim impressionou.
- O amor não é uma pessoa. Não adianta achar que uma pessoa vai resolver a sua falta de amor sendo que você não lhe praticou nos momentos que você vive, com as pessoas que você vive. Amar é estar presente.
Quem me falou essa última frase foi meu primo Diogo. E quem ouviu foi meu outro primo Lucas. E tudo isso caiu pela cachoeira do tempo que tritura e transforma tudo em cinema.
Os karmas, as bênçãos, os inexplicáveis presentes da vida. Ou as inexplicáveis ausências. O não estar como forma de expressão, causador do vazio sem culpa, a doçura de um gesto cruel feito com ingenuidade.
E toda essa contagem de pontos espirituais que ninguém sabe quem contabiliza, mas que de fato tem uma lógica inatingível. Eram os Deuses matemáticos?
Mas Deus não é uma pessoa, mas tão somente uma sinergia, uma sincronia de suspiros, uma seqüência de acontecimentos que adquirem significados afetivos e criam a nossa corredeira, que se cruza com outras correntezas.
O eterno ir. Deus é cinema. E o agridoce cria os caminhos dessa correnteza que não deve se explicar. Um dia, se todas essas cenas e sentimentos forem escritos talvez façam sentido, criem um cara que tentou ser um cara. Enquanto não se oficializa, eu só quero caminhar. Continuar a tentar, ser o que nunca poderá se dizer: “eu sou”. Se quiser me conhecer, esteja lá.