Os Mimos – Capítulo 1

Queridos, hoje resolvi trazer esse blog de volta pois nele está a marca das minhas reflexões e inspirações mais íntimas (haja visto o drama dos posts do ano passado!). Mas quero também trazer para vocês irem acompanhando, uma ficção. Falar da vida é legal, mas inventar é muito mais. Abaixo, o início de Os Mimos, narrativa em capítulos baseada em uma série de contos deste mesmo blog.

Preciso de comentários, portanto não se contenham!

Amor para todos,
gabriel garbulho

obs: capítulo publicado em 30/01 e revisado em 09/02.

- Essa música é mais que um abraço.
2 horas da manhã, Miguelim de voz rala.
- Detalhes, Miguelim? Roberto Carlos, vindo de você?
- Você esperava o que neste bar, meu caro? Hermeto Paschoal? – e se ri no cinismo alcoólico – se você nunca reparou nesses detalhes, você nunca amou, amigo Carlos.
- Porque todo poeta adora dar sermão sobre o amor? – Carlos enfezado na praia.
- Sermão? Só tô dando um toque pra verdade, uai – e vira o final do copo de cerveja – o tempo que transforma todo amor em quase nada… mas nada também é mais um detalhe!

NADA TAMBÉM É MAIS UM DETALHE!

Algo animou o humor ébrio de Miguelim. Foi um espasmo, um feeling. Uma atitude, ao modo dos bons criadores.

O terraço a beira-mar na praia velha de Santos foi palco do início deste road movie que até agora só vivia na cabeça de Miguelim. A única pista que Carlos, seu companheiro de copo e naquele momento já um amigo de confissão, tinha era o gosto pela loucura com que Miguelim nutria seus textos internáuticos e a insistência de seu novo amigo em brindar a vida naquele lugar tão fora de propósito. Um bar meia boca na ilha Porchat. E aquele homem tocando um teclado com o timbre da angústia.
- Está preparado para conhecer a mulher mais apaixonante da sua vida?
- Miguelim, não se esqueça que eu sou um homem sozinho também! – sacana.
- Você que trate de esquecer que é um homem sozinho! – e dá risada – e aquela lá?
- Aquela qual?
- Aquela lá da Rua Augusta!
- Ah! Aquilo foi uma loucura. Ela é Zona Sul demais pra mim. – um pequeno silêncio – Uai, eu te contei isso?
- Todo Carlos que trabalha na Paulista já teve um amor na Augusta, nem que tenha sido na grana mesmo – e ri ainda mais – Carlos, num deixa eu te botar no bolso senão eu enjoo!
- Ah, adivinhar é fácil! Difícil é estar sempre lá.
- Uuu, alguém tá se revelando poetinha né?
- Tá achando que só você é quem cria é? – Carlos, maroto.
- Crio nada não, eu só sei ouvir “Detalhes”, isso pelo visto, você ainda não aprendeu. Enfim, pega a chave do carro que eu tô sem condição moral! A gente vai pegar estrada já.
- Ótimo, se eu puder dormir na sua casa, melhor ainda!
- Casa… – faz uma pausa suspeita – São Paulo anda frio demais! Conheço alguém que recebe a gente com cama, comida, carinho e não precisa nem te pedir o RG e o CPF. Bora pra Minas.
- Que? – Carlos se arregala.
- É isso mesmo. Tenho uma grana guardada do último livro, preciso relembrar esses detalhes pra Cristal! Bora, bora!
- Ó Miguilim, te admiro, beber com você me fez um bem danado, mas viajar pra outro estado de madrugada é muita brisa! Me deixa na praia que tá ótimo.
Hmm, admiração? Eu preciso de um amigo, não de um fã. Vamo embora, eu te cubro essa semana sem trabalho.
- Cobre como, homem?
- Não desconfia de mim! Eu só quero abrir essa porta quando esse estado de São Paulo tiver para trás. Eu tenho estado São Paulo demais.
- Não, você só tava bebendo com um vendedor falido na ilha Porchat.

Um momento de angústia para Carlos: a vida desabando em São Paulo, um bom amigo com vontade própria como não se via há tempos, viver com poesia. E aí? Pra onde ir? Tarde demais, esse pensamento já os encontra na estrada.

“É a estrada que passa por mim, ou eu que passo pela estrada? A velha perspectiva. E o Miguilim capotado.” Passa por uma parada de caminhões, fechada. “A estrada obriga a gente a ir… Será que já traçaram meu caminho?”, puxa um gole de água o inseguro Carlos. O insensato Carlos. Aquele que já disse um não com convicção. “Por que eu sou assim? Por que eu gastei tanto tempo pra perceber que a vida é grande e a estrada infinita? Olha, tô fazendo poesia! Vô falar pro Miguilim quando ele acordar.”

O nascer do sol em Minas é lento e sempre sai de trás da igreja. Passavam Camanducaia quando Miguilim gritou.
- CRISTAL!
Seus olhos não tinham expressão, ainda estava entregue ao transe.
Carlos sentiu o arrepio astral do seu novo amigo. Finalmente sentia ter reconhecido aquela amizade.
“Engraçado como o Miguilim já soa familiar.” Faziam 2 dias que tinham se conhecido e Carlos nem lembrava mais quais foram as primeiras palavras da parceria. “Engraçado também como ele não me faz sentir banal”, e o resto foram pensamentos que não interessam à nossa leitura.

- Miguilim, quer um café?
- Hmmm… Hmmm… – ainda atordoado – o cheiro do pão de queijo, a música do Milton, hmmm, Minas!
- Não tem pão de queijo e não tá tocando Milton.
- Me deixa sonhar, porra!
- Tá bom, eu vou lá comer uma coxinha.

Uma parada com um cavalo de plástico e uma capela que falseava um sentimento colonial. Algo ali cheirava a cenografia.
Entrou na área da padaria, simples, daquelas em que se vê o padeiro por uma divisória de acrílico, onde vendem requeijões, queijos frescos. Ao ver os preços, a constatação de Carlos: eles cobram pela cenografia.
Uma senhora ao fundo comprava uma compota de doce de leite, o caminhoneiro olhava as revistas pornográficas em meio às de crochê e ponto-cruz. Puro folclore.

- Ó Miguilim, achei o tal do pão de queijo. E foi tão caro, que se você apertar ele toca Milton!

Miguilim morde o pão de queijo e começa: “Ponhmmta demmm ammmreia, (mastiga) Pohnmmmtommm finalmmmm, bom esse Milton de queijo né?”.
- Ainda bem que eu larguei toda aquela encenação que eu vendia.
- Pô meu, mas você é um bom ator! – Miguilim ainda de boca cheia
- Ah, sou! Eu e os outros 35 idiotas que acreditavam no mesmo branding!
- Você é bom ator, só não pegou um bom script. Mas pelo menos esse filme ruim rendeu um pão de queijo que canta Milton Nascimento
- E uma viagem maluca com o poetinha da cidade falida! – sagaz.
- É isso mesmo, a gente foi embora, a cidade faliu! Aliás! Aliás! São Paulo faliu quando Cristal foi viajar! É isso, o Metrô quebrou de um dia pro outro, as pessoas pararam de rir, rolou até um apagão. Ela é o amuleto daquele lugar.
- E você quer ir buscar o amuleto de volta, é isso?
- Não – e fica sério, uma novidade – Não. Não quero sugar o suor dela de novo.
- Sugar o suor? Parece que você tava assaltando.
- Assaltei mais que isso. Assaltei a honra da cristal. Ela chorou sangue cristalino por mim.
- É Miguilim, tô tentando decifrar o fato dentro da metáfora, mas tá difícil.
- O acontecimento é desprezível perto do que ele representa pra quem viveu. Você tá sentindo o que o meu coração sentiu, e vai conhecer o que sentiu o coração dela em breve.

Silêncio. O poetinha cruzou o limite da própria ficção e se machucou. E Carlos voltou a pensar sobre a perspectiva da estrada.

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São Paulo, 13 de dezembro de xxxx

Por que eu ainda formato cartas?

Cristal, o mimo que te dei foi pouco perto do desafio que é ser você todo dia. Talvez ainda seja eu demais para te viver. Preciso me libertar da pose de poesia suja, da pedância poética, da parede grafitada do apartamento, do vício em café gelado.
Tudo para atingir a tua pureza, o teu encanto.
O Natal me emociona pela primeira vez, talvez porque eu esteja só. Toda a burocracia comercial do paulistano nessa época sempre foi um sinal de falência, mas sem você tudo virou paixão. O olhar da criança no shopping, por mais vendido que seja, é paixão. O esforço do pai em colocar o filho no plágio elétrico de um tempo rural que é o carrossel, montado em um cavalo encravado num pole dancing, pra mim virou paixão.

Abandonei o cool e o crítico, sou todo carinho. E lembro das tuas mãos com frequência. Esses dias fui à um supermercado e a moça embalou um panetone (!) pra mim com tanto carinho que quando vi suas mãos, vi você. Quase não largo o panetone (minha mãe deu conta disso, do jeito dela!).

Falei demais de mim, mas só quero saber de você.
Saudade, fico com as palavras.

Beijo,
Miguilim

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Amanducaba, 28 de dezembro de xxxx

Miguilim,
infelizmente não tenho mais nada pra te dizer.
Fico feliz que tenha descoberto o amor, há sempre alguém querendo ser amado.

Boa Jornada,
Cristiane (Cristal)

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