Aqui é o meu país

o balanço da estrada me acalma
uma esteira de pensamentos
sobrevoam a vegetação
do vale do ribeira
lembro de você falando besteira
com um conhaque na mão
tentando esconder seu charme
pra não roubar meu coração
assim fácil, sem desafio

e esse coração que é uma lareira
quis aquecer teu corpo
no frio dessa nossa estrada
no fio da meada
miúdos nas minúcias
de um grande romance

subir no palco é sempre aquele lance
de cantar pra viver
viver pra você
e sublimar
nas notas, nos arroubos
de um rockstar de periferia
mergulhado na gente
que doa seu pouco tempo de atenção
entre o trabalho e o futebol
entre utopias de um dia a dia
extremamente real

estou ali, feito ficção
descido de uma nave espacial
vestido de subversão
para falar de amor no final
mas não seria o amor surreal
como aqueles sobrados estreitos,
corredores escuros
o olhar das crianças nas poucas grades
a casa de rua
acasala com o mundo
e a música gira,
pira, pula,
parte para outra aventura
em outra parte desse tudo
que é o povo

e nós vamos dançar de novo
em outro sertão
outrossim, outro não
outrora em pirapora
agora em assunção,
enquanto chora o cuitelinho
quando a terra cora
toda hora é hora de ter mais hora
para mais um refrão
um grito de alerta contra a normose
uma dúvida, um senão
que vai te acompanhar
até a sua quebrada
vai consertar uma idéia errada
construir, vai plantar
vai crescer e sair por aí
de short e chinelo,
com bola rolando
em campo de giz

esse coração que te ama
rola por aí como a chama
deste jogo brasileiro
na alma deste rebordo,
a bordo de um navio negreiro
e eu cantando para o mundo inteiro
como se ainda estivesse
no chão de estrelas
das casas acumuladas
na ribanceira
andando na bagaceira
atravessando a noite
as matas,
os vales silenciosos
que separam as periferias
andando em sonoras trilhas
de realidade exausta

amores austeros
olhares calejados
seja pela fome,
ou pela aspereza
de viver distante
da cultura, do trabalho,
ou do carinho classe média,
com beijo quente de mamãe
pela manhã
acompanhado de uma
carinhosa mesa de café
lá só sobrou fé
abafando o fel
de viver às pencas
se esfregando, se roçando,
dividindo, agrupando
sem limite entre
eu e você
a fé devora esta malemolência
em troca de dignidade
no meio do abandono
da grande cidade
o sonho de ser
uma família de bem
bemvinda em qualquer sala
respeitada nas ocasiões
calada em meio aos sermões
dos pastores, empregadores
governantes,
apagar o passado retirante
de qualquer caminho,
qualquer direção,
e todos dizem não.

É mais fácil dizer amém,
mas eu quero ir além
e amar
manter os olhos lúcidos
e me doar
elucidar o enigma
da dor de perdoar
e, como sempre,
cantar o que eu aprendo,
fazer o povo dançar
cada um no seu próprio tempo,
tomando seu próprio tento,
se deixando tentar.

Aqui é o meu país.

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