Hoje algo me formigou para escrever esse compêndio de momentos insólitos que criam um campo magnético de tangência com a fala do Lobão essa semana no pânico: o Brasil precisa de timbragem! E o mais incrível, este não é um texto sobre música…
Cena 1
O velhinho chupa a gengiva em seu canto, na cadeira de plástico, divino. Um quintal de cimento batido, parede azul cor de pelourinho e ali está, veja só você, o rock nacional. Primeiro me deparo com 2 andares de teclados, uma bateria velha e um baixista explicitamente crente (haja visto a camisa amarela, crente adora camisa cor de angústia).
O tecladista chega, mouro, lente de contato no olho, sandália de couro e dedos dos quais emergem uma quantidade de strings suficiente para toda uma geração de power points. (Strings? Aquele efeito de violinos digitais na caverna). Esse creme de brullé da tecladoria mundial está devidamente defumado ao sabor de infinitas linguiças na grelha, que assitem também à chegada do violonista já mais com cara de músico profissional, sabe como é? Panca, brothers. Panca, e uma leve pança que pesou em cima do Capital Inicial, executado com um constrangimento dividido com um semblante de leve derrota entre os músicos. “Tanto talento e eu vim parar aqui, do lado de um som de bateria tocado no teclado.” Justo, consciência. Como diria em uma música feita em tempos desacreditados, “se o dom não pode te salvar do fracasso, é bom então se preparar pro desejo e seus dentes de aço”. Desejo ébrio, por supuesto, enquanto toda aquela maré de filhos adolescentes discutem vídeos tolos da internet, mulheres velhas dançam com vestido da festa passada. A rua tem um buraco maior que muita piscina em que eu já entrei e são 3 da manhã e só sobrou Itaipava. E uma mina que tá pedindo pra tocar pagode.
Cena 2
“As melhores coisas do mundo”. Putz, eu abraçado na mulher que me ensinou um amor com liberdade e estrutura e na tela uma revisão da adolescência efervescendo na mão de Laís Bodanzki (sou fã incondicional dela). Impressionante como adolescer é um padecer mítico: a fase tão cobiçada pelo saudosismo é um mito de irreverência (a gente não era tão interessante assim), de felicidade (a gente não era feliz o tempo todo, e o pior, sabia disso), e de loucura. Loucura? Mano, olha o trânsito, tá cheio de gente louca e não tem um adolescente lá, nada. As melhores coisas do mundo são aquelas que te libertam e o meu amor me liberta de uma vida de assuntos restritos e pessoas burocráticas. Ela é incrível.
Cena 3
Incrível é como o banal intriga. Será um estado de espírito elevado? Tenho alguns primos que gostam de falar pouco, outros que são pouco comprometidos com a socialização, coisas de família grande. Às vezes desconfio que há um empenho para conquistar o Nirvana naquelas almas caladas. Naquelas almas que repudiam o string mas não tem coragem sequer de reclamar. Um olhar que não se define entre preguiça e falta do que descrever.