Posted by

Esses dias

Ando com uma vontade de ser comum, de ser assim, nenhum. Tipo preposição sem predicado, tipo atacado, tipo marcado. Esses dias andam assim, caminhando cansados, mas sem nenhum propósito a não ser o lugar comum.

Como achar a vida saborosa quando a memória guarda tão pouco do que é bom? A grande maioria do que acontece é apagado por nós como um imenso caco de cena, escada pra aquela história construída a custo de uma temporização necessária, como um peru no forno.

A memória me torna tão interessante a ponto de ansiar o inconformismo. Vem então aquela vontade de escrever para tentar afixar essa reflexão em uma figura de linguagem. A língua abençoa o banal, alimenta a história do que podia passar para o além sem ter o seu momento. É uma foto de Cartier-Bresson.

Isso não é lindo? A gente nunca vai saber o tamanho da nossa importância pois ela não é nossa, pertencendo aos olhos de quem te entende.

Lembrei agora do Rodin, que esperou por muitos anos para apresentar a sua primeira obra, pois tinha que esperar pela “grande obra”. E quando encontrou o tempo certo nasceu, devidamente gestada por tantos momentos comuns e passageiros.

Meu tio falou um lance esses dias que vou tomar como exemplo daqui pra frente: sejamos ordinários. Ser extraordinário é muito pouco perto de uma vida tão grande, agora fazer todo momento pelo menos parecer interessante é tarefa pra quem tem culhões.

Ainda vou achar um propósito que trará orgulho ao homem comum que vive aqui dentro.

Memories of Green – pt. I

Olha eu aqui perdido entre os muitos formulários sociais que a gente se obriga ostensivamente a preencher para ser encontrado por aí, ter sua arte avaliada e suas letras lidas. Eu sinceramente desacreditava nisso até uns tempos atrás quando percebi que essa dinâmica silenciosa de visualizações anônimas dos textos, fotos e sons que a gente posta tem sua beleza.

De repente estamos dentro dos olhos e ouvidos dos outros sem saber, lendo a obra através da vida desse alguém que acalca todas as suas animosidades no que você escreveu, mesmo que às vezes o autor não tenha intencionado originalmente aquela sensação. Mas seria muita presunção e pouca criatividade querer controlar os rompantes alheios diante da mais fascinante capacidade humana: a interpretação.

Comecei a aceitar isso a partir de quando percebi que faço isso convictamente há anos. Hoje coloquei o Clube pra tocar e me identifico com cada nota, com cada erro de andamento, com cada corte de tape com chiado diferente. E pra você que acha que ruído é besteira, ouça as dúzias de versões que o Lô Borges fez de “Girassol da Cor do seu Cabelo” e você vai perceber como aquele ruído solitário do piano faz uma falta danada.

A música pop tem esse charme de calça jeans: veste cada um de um jeito diferente mesmo sendo do mesmo modelo, o grande segredo é não se deixar levar pela marca. Acho que deu para entender qual a retroação dessa metáfora, certo?

Retroação? Não sei, mas achei bonito e me dei ao direito. Alguém aí, cuida do dicionário que eu cuido do argumento. Alguém aí? Eu nunca vou saber. Mas em cima do palco ali olhando aquele monte de gente, muitas vezes a gente também não sabe. 

O Alvin L. falou que a maior emoção dele aconteceu uma vez que ele estava andando de ônibus e viu uma moça encostada no vidro cantando “Eu não sei dançar”, letra dele com música da Marina. E olha que momento mágico, aquele em que o autor passa a elocubrar o que aquela música poderia representar naquele momento para aquela pessoa. 

Em outros casos, é quase que um serviço social. Imagine você qual o sentimento do Fábio Jr. ao cantar “Pai” pela 30a vez na mesma semana após 35 anos de shows com a mesma música todas as noites? Nenhum. Mas lá está ele pelo dever de causar uma explosão particular de sentimentos e power points mentais em cada tiazinha da platéia, assim como há 30 e tantos anos atrás. Isso tem o seu valor.

Obrigado, operários da música. Vocês sabem como fazer a vida comum parecer especial de alguma maneira.

Dia desses eu volto a falar de interpretação.

 

011

Tem gente que só sabe falar pela buzina mesmo. Dá pra ver o ódio do sujeito diante do embargo espásmico de 3 segundos em que o carro da frente demora para entender que o sinal abriu. Mas aqui do ônibus só dá pra assistir de camarote, ou olhar as coisas por cima do muro. Mas os muros são altos demais, são vidros de prédios que encobrem a cidade velha, os sobrados comerciais que guardam os rococós que antes ficavam escondidos por grandes luminosos.

As luzes dos anúncios cederam, mas a cidade não ficou limpa. Os viciados saíram da Cracolândia, mas a Luz não ficou em paz. Não existe claridade em SP, amigo Criolo, a vida é sempre difusa no meio de tanta chuva e tanta gente, tanta coisa passando, inclusive a própria vida. Mas essa não é nossa, é deles. Aqueles fantasmas que burocratizam as coisas, que criticam levianamente, que usam a fé como escudo para não evoluir. São aqueles que tanto buzinam no trânsito para chegar em casa e ligar a televisão.

Servimos com atendimento telefônico, ou como garçom nos restaurantes, ou como pedreiro, encanador, o moço que faz o site. Fazemos seus filhos se sentir seguros e seu carro ficar potente, e ao mesmo tempo somos algozes deles também. E o inferno são os outros, e os outros somos nós.

Nessas horas penso nos meus bisavós chegando em uma cidade cheia de rios, imigrantes nas ruas, cortiços animados, parques e muitos cinemas. Todo mundo sem ter o que perder (já tinham saído do país de origem e largado toda uma história, ora pois) e com muita coisa para contar, muita festa para beber, muito emprego para trabalhar.

São Paulo cresceu sem avisar ninguém, de repente ficou longe de si mesma. O Brás, o Bexiga, o Bom Retiro, todos marginalizados sem entender quem lhes arrancou a alma. O Centro enterrado na sua solidão noturna, belo e sujo, enquanto as bordas estão todas acesas. A Serra da Mantiqueira já faz parte da avenida, que dá em outra avenida, que dá em outra avenida, e nenhuma delas me dá o caminho de casa.

Queria ter a coragem de me divertir entrando correndo no trem maçarocado, mas não consigo. Queria ir no estádio lotado junto com a torcida organizada, mas não sei porque estaria lá. Queria ir no Villa Country dançar algum refrão monossilábico. E talvez um dia eu realmente vá.

Mas estou longe, como essa alma de São Paulo que correu pro pé da serra. Na minha cabeça ainda funciona uma Rangel Pestana cheia de cadeiras de cordão, com senhoras conversando, ou um Tatuapé cheio de chácaras e crianças nadando no rio Tietê. Tenho uma nostalgia de algo que nunca vivi, por um único motivo: amor.

Gostaria de ver esta cidade viva de gente porque amo ela. Se não amasse, simplesmente viraria as costas e viveria em outro lugar. Mas não, São Paulo me escolheu, me reteve, me aviltou e ensinou o que eu nunca ia descobrir em qualquer outro lugar. Me fez descobrir gestos realmente dignos em situações extremas, me fez ver carinho nos olhos de quem eu nunca veria.

É por isso que não queria ver mais engenheiros e homens insípidos governando esse lugar. Estes já fizeram pontes e túneis suficientes para tornar a cidade em um grande formigueiro de concreto armado. Eu quero um governo de amor, que proponha trazer uma onda de carinho para a cidade. Que faça o centro viver sem vende-lo para as mesmas empreiteiras que roubaram sua energia, que traga dignidade real para a periferia, sem dar meia dúzia de escolas e creches como esmola.

Queria alguém que soubesse pegar o lado encantador das pessoas daqui e multiplica-lo, criando uma corrente de brilho, de luta por uma sociedade mais unida. Espero que um dia apareça, ou que algum grupo tome de assalto essas ruas antigas e prove que nosso samba tá na rua, e é quadrado porque a gente é assim. Esse é o jeito paulistano, meio brejeiro, meio rabugento, mas sempre charmoso pela sua perspicácia.

E quando a gente se junta para ser feliz (e não para viver uma farsa como é o caso da Virada Cultural), ninguém pode com a gente, porque a gente tem todo mundo!

Aqui é o meu país

o balanço da estrada me acalma
uma esteira de pensamentos
sobrevoam a vegetação
do vale do ribeira
lembro de você falando besteira
com um conhaque na mão
tentando esconder seu charme
pra não roubar meu coração
assim fácil, sem desafio

e esse coração que é uma lareira
quis aquecer teu corpo
no frio dessa nossa estrada
no fio da meada
miúdos nas minúcias
de um grande romance

subir no palco é sempre aquele lance
de cantar pra viver
viver pra você
e sublimar
nas notas, nos arroubos
de um rockstar de periferia
mergulhado na gente
que doa seu pouco tempo de atenção
entre o trabalho e o futebol
entre utopias de um dia a dia
extremamente real

estou ali, feito ficção
descido de uma nave espacial
vestido de subversão
para falar de amor no final
mas não seria o amor surreal
como aqueles sobrados estreitos,
corredores escuros
o olhar das crianças nas poucas grades
a casa de rua
acasala com o mundo
e a música gira,
pira, pula,
parte para outra aventura
em outra parte desse tudo
que é o povo

e nós vamos dançar de novo
em outro sertão
outrossim, outro não
outrora em pirapora
agora em assunção,
enquanto chora o cuitelinho
quando a terra cora
toda hora é hora de ter mais hora
para mais um refrão
um grito de alerta contra a normose
uma dúvida, um senão
que vai te acompanhar
até a sua quebrada
vai consertar uma idéia errada
construir, vai plantar
vai crescer e sair por aí
de short e chinelo,
com bola rolando
em campo de giz

esse coração que te ama
rola por aí como a chama
deste jogo brasileiro
na alma deste rebordo,
a bordo de um navio negreiro
e eu cantando para o mundo inteiro
como se ainda estivesse
no chão de estrelas
das casas acumuladas
na ribanceira
andando na bagaceira
atravessando a noite
as matas,
os vales silenciosos
que separam as periferias
andando em sonoras trilhas
de realidade exausta

amores austeros
olhares calejados
seja pela fome,
ou pela aspereza
de viver distante
da cultura, do trabalho,
ou do carinho classe média,
com beijo quente de mamãe
pela manhã
acompanhado de uma
carinhosa mesa de café
lá só sobrou fé
abafando o fel
de viver às pencas
se esfregando, se roçando,
dividindo, agrupando
sem limite entre
eu e você
a fé devora esta malemolência
em troca de dignidade
no meio do abandono
da grande cidade
o sonho de ser
uma família de bem
bemvinda em qualquer sala
respeitada nas ocasiões
calada em meio aos sermões
dos pastores, empregadores
governantes,
apagar o passado retirante
de qualquer caminho,
qualquer direção,
e todos dizem não.

É mais fácil dizer amém,
mas eu quero ir além
e amar
manter os olhos lúcidos
e me doar
elucidar o enigma
da dor de perdoar
e, como sempre,
cantar o que eu aprendo,
fazer o povo dançar
cada um no seu próprio tempo,
tomando seu próprio tento,
se deixando tentar.

Aqui é o meu país.

A Voz do Dono e o Dono da Voz

Hoje algo me formigou para escrever esse compêndio de momentos insólitos que criam um campo magnético de tangência com a fala do Lobão essa semana no pânico: o Brasil precisa de timbragem! E o mais incrível, este não é um texto sobre música…

Cena 1

O velhinho chupa a gengiva em seu canto, na cadeira de plástico, divino. Um quintal de cimento batido, parede azul cor de pelourinho e ali está, veja só você, o rock nacional. Primeiro me deparo com 2 andares de teclados, uma bateria velha e um baixista explicitamente crente (haja visto a camisa amarela, crente adora camisa cor de angústia).

O tecladista chega, mouro, lente de contato no olho, sandália de couro e dedos dos quais emergem uma quantidade de strings suficiente para toda uma geração de power points. (Strings? Aquele efeito de violinos digitais na caverna). Esse creme de brullé da tecladoria mundial está devidamente defumado ao sabor de infinitas linguiças na grelha, que assitem também à chegada do violonista já mais com cara de músico profissional, sabe como é? Panca, brothers. Panca, e uma leve pança que pesou em cima do Capital Inicial, executado com um constrangimento dividido com um semblante de leve derrota entre os músicos. “Tanto talento e eu vim parar aqui, do lado de um som de bateria tocado no teclado.” Justo, consciência. Como diria em uma música feita em tempos desacreditados, “se o dom não pode te salvar do fracasso, é bom então se preparar pro desejo e seus dentes de aço”. Desejo ébrio, por supuesto, enquanto toda aquela maré de filhos adolescentes discutem vídeos tolos da internet, mulheres velhas dançam com vestido da festa passada. A rua tem um buraco maior que muita piscina em que eu já entrei e são 3 da manhã e só sobrou Itaipava. E uma mina que tá pedindo pra tocar pagode.

Cena 2

“As melhores coisas do mundo”. Putz, eu abraçado na mulher que me ensinou um amor com liberdade e estrutura e na tela uma revisão da adolescência efervescendo na mão de Laís Bodanzki (sou fã incondicional dela). Impressionante como adolescer é um padecer mítico: a fase tão cobiçada pelo saudosismo é um mito de irreverência (a gente não era tão interessante assim), de felicidade (a gente não era feliz o tempo todo, e o pior, sabia disso), e de loucura. Loucura? Mano, olha o trânsito, tá cheio de gente louca e não tem um adolescente lá, nada. As melhores coisas do mundo são aquelas que te libertam e o meu amor me liberta de uma vida de assuntos restritos e pessoas burocráticas. Ela é incrível.

Cena 3

Incrível é como o banal intriga. Será um estado de espírito elevado? Tenho alguns primos que gostam de falar pouco, outros que são pouco comprometidos com a socialização, coisas de família grande. Às vezes desconfio que há um empenho para conquistar o Nirvana naquelas almas caladas. Naquelas almas que repudiam o string mas não tem coragem sequer de reclamar. Um olhar que não se define entre preguiça e falta do que descrever.

Os Mimos – Capítulo 1

Queridos, hoje resolvi trazer esse blog de volta pois nele está a marca das minhas reflexões e inspirações mais íntimas (haja visto o drama dos posts do ano passado!). Mas quero também trazer para vocês irem acompanhando, uma ficção. Falar da vida é legal, mas inventar é muito mais. Abaixo, o início de Os Mimos, narrativa em capítulos baseada em uma série de contos deste mesmo blog.

Preciso de comentários, portanto não se contenham!

Amor para todos,
gabriel garbulho

obs: capítulo publicado em 30/01 e revisado em 09/02.

- Essa música é mais que um abraço.
2 horas da manhã, Miguelim de voz rala.
- Detalhes, Miguelim? Roberto Carlos, vindo de você?
- Você esperava o que neste bar, meu caro? Hermeto Paschoal? – e se ri no cinismo alcoólico – se você nunca reparou nesses detalhes, você nunca amou, amigo Carlos.
- Porque todo poeta adora dar sermão sobre o amor? – Carlos enfezado na praia.
- Sermão? Só tô dando um toque pra verdade, uai – e vira o final do copo de cerveja – o tempo que transforma todo amor em quase nada… mas nada também é mais um detalhe!

NADA TAMBÉM É MAIS UM DETALHE!

Algo animou o humor ébrio de Miguelim. Foi um espasmo, um feeling. Uma atitude, ao modo dos bons criadores.

O terraço a beira-mar na praia velha de Santos foi palco do início deste road movie que até agora só vivia na cabeça de Miguelim. A única pista que Carlos, seu companheiro de copo e naquele momento já um amigo de confissão, tinha era o gosto pela loucura com que Miguelim nutria seus textos internáuticos e a insistência de seu novo amigo em brindar a vida naquele lugar tão fora de propósito. Um bar meia boca na ilha Porchat. E aquele homem tocando um teclado com o timbre da angústia.
- Está preparado para conhecer a mulher mais apaixonante da sua vida?
- Miguelim, não se esqueça que eu sou um homem sozinho também! – sacana.
- Você que trate de esquecer que é um homem sozinho! – e dá risada – e aquela lá?
- Aquela qual?
- Aquela lá da Rua Augusta!
- Ah! Aquilo foi uma loucura. Ela é Zona Sul demais pra mim. – um pequeno silêncio – Uai, eu te contei isso?
- Todo Carlos que trabalha na Paulista já teve um amor na Augusta, nem que tenha sido na grana mesmo – e ri ainda mais – Carlos, num deixa eu te botar no bolso senão eu enjoo!
- Ah, adivinhar é fácil! Difícil é estar sempre lá.
- Uuu, alguém tá se revelando poetinha né?
- Tá achando que só você é quem cria é? – Carlos, maroto.
- Crio nada não, eu só sei ouvir “Detalhes”, isso pelo visto, você ainda não aprendeu. Enfim, pega a chave do carro que eu tô sem condição moral! A gente vai pegar estrada já.
- Ótimo, se eu puder dormir na sua casa, melhor ainda!
- Casa… – faz uma pausa suspeita – São Paulo anda frio demais! Conheço alguém que recebe a gente com cama, comida, carinho e não precisa nem te pedir o RG e o CPF. Bora pra Minas.
- Que? – Carlos se arregala.
- É isso mesmo. Tenho uma grana guardada do último livro, preciso relembrar esses detalhes pra Cristal! Bora, bora!
- Ó Miguilim, te admiro, beber com você me fez um bem danado, mas viajar pra outro estado de madrugada é muita brisa! Me deixa na praia que tá ótimo.
Hmm, admiração? Eu preciso de um amigo, não de um fã. Vamo embora, eu te cubro essa semana sem trabalho.
- Cobre como, homem?
- Não desconfia de mim! Eu só quero abrir essa porta quando esse estado de São Paulo tiver para trás. Eu tenho estado São Paulo demais.
- Não, você só tava bebendo com um vendedor falido na ilha Porchat.

Um momento de angústia para Carlos: a vida desabando em São Paulo, um bom amigo com vontade própria como não se via há tempos, viver com poesia. E aí? Pra onde ir? Tarde demais, esse pensamento já os encontra na estrada.

“É a estrada que passa por mim, ou eu que passo pela estrada? A velha perspectiva. E o Miguilim capotado.” Passa por uma parada de caminhões, fechada. “A estrada obriga a gente a ir… Será que já traçaram meu caminho?”, puxa um gole de água o inseguro Carlos. O insensato Carlos. Aquele que já disse um não com convicção. “Por que eu sou assim? Por que eu gastei tanto tempo pra perceber que a vida é grande e a estrada infinita? Olha, tô fazendo poesia! Vô falar pro Miguilim quando ele acordar.”

O nascer do sol em Minas é lento e sempre sai de trás da igreja. Passavam Camanducaia quando Miguilim gritou.
- CRISTAL!
Seus olhos não tinham expressão, ainda estava entregue ao transe.
Carlos sentiu o arrepio astral do seu novo amigo. Finalmente sentia ter reconhecido aquela amizade.
“Engraçado como o Miguilim já soa familiar.” Faziam 2 dias que tinham se conhecido e Carlos nem lembrava mais quais foram as primeiras palavras da parceria. “Engraçado também como ele não me faz sentir banal”, e o resto foram pensamentos que não interessam à nossa leitura.

- Miguilim, quer um café?
- Hmmm… Hmmm… – ainda atordoado – o cheiro do pão de queijo, a música do Milton, hmmm, Minas!
- Não tem pão de queijo e não tá tocando Milton.
- Me deixa sonhar, porra!
- Tá bom, eu vou lá comer uma coxinha.

Uma parada com um cavalo de plástico e uma capela que falseava um sentimento colonial. Algo ali cheirava a cenografia.
Entrou na área da padaria, simples, daquelas em que se vê o padeiro por uma divisória de acrílico, onde vendem requeijões, queijos frescos. Ao ver os preços, a constatação de Carlos: eles cobram pela cenografia.
Uma senhora ao fundo comprava uma compota de doce de leite, o caminhoneiro olhava as revistas pornográficas em meio às de crochê e ponto-cruz. Puro folclore.

- Ó Miguilim, achei o tal do pão de queijo. E foi tão caro, que se você apertar ele toca Milton!

Miguilim morde o pão de queijo e começa: “Ponhmmta demmm ammmreia, (mastiga) Pohnmmmtommm finalmmmm, bom esse Milton de queijo né?”.
- Ainda bem que eu larguei toda aquela encenação que eu vendia.
- Pô meu, mas você é um bom ator! – Miguilim ainda de boca cheia
- Ah, sou! Eu e os outros 35 idiotas que acreditavam no mesmo branding!
- Você é bom ator, só não pegou um bom script. Mas pelo menos esse filme ruim rendeu um pão de queijo que canta Milton Nascimento
- E uma viagem maluca com o poetinha da cidade falida! – sagaz.
- É isso mesmo, a gente foi embora, a cidade faliu! Aliás! Aliás! São Paulo faliu quando Cristal foi viajar! É isso, o Metrô quebrou de um dia pro outro, as pessoas pararam de rir, rolou até um apagão. Ela é o amuleto daquele lugar.
- E você quer ir buscar o amuleto de volta, é isso?
- Não – e fica sério, uma novidade – Não. Não quero sugar o suor dela de novo.
- Sugar o suor? Parece que você tava assaltando.
- Assaltei mais que isso. Assaltei a honra da cristal. Ela chorou sangue cristalino por mim.
- É Miguilim, tô tentando decifrar o fato dentro da metáfora, mas tá difícil.
- O acontecimento é desprezível perto do que ele representa pra quem viveu. Você tá sentindo o que o meu coração sentiu, e vai conhecer o que sentiu o coração dela em breve.

Silêncio. O poetinha cruzou o limite da própria ficção e se machucou. E Carlos voltou a pensar sobre a perspectiva da estrada.

———————————————————————————————————

São Paulo, 13 de dezembro de xxxx

Por que eu ainda formato cartas?

Cristal, o mimo que te dei foi pouco perto do desafio que é ser você todo dia. Talvez ainda seja eu demais para te viver. Preciso me libertar da pose de poesia suja, da pedância poética, da parede grafitada do apartamento, do vício em café gelado.
Tudo para atingir a tua pureza, o teu encanto.
O Natal me emociona pela primeira vez, talvez porque eu esteja só. Toda a burocracia comercial do paulistano nessa época sempre foi um sinal de falência, mas sem você tudo virou paixão. O olhar da criança no shopping, por mais vendido que seja, é paixão. O esforço do pai em colocar o filho no plágio elétrico de um tempo rural que é o carrossel, montado em um cavalo encravado num pole dancing, pra mim virou paixão.

Abandonei o cool e o crítico, sou todo carinho. E lembro das tuas mãos com frequência. Esses dias fui à um supermercado e a moça embalou um panetone (!) pra mim com tanto carinho que quando vi suas mãos, vi você. Quase não largo o panetone (minha mãe deu conta disso, do jeito dela!).

Falei demais de mim, mas só quero saber de você.
Saudade, fico com as palavras.

Beijo,
Miguilim

——————————————————————————————————-

Amanducaba, 28 de dezembro de xxxx

Miguilim,
infelizmente não tenho mais nada pra te dizer.
Fico feliz que tenha descoberto o amor, há sempre alguém querendo ser amado.

Boa Jornada,
Cristiane (Cristal)

———————————————————————————————————

Luzídio

A língua entre os dentes, a tv sozinha. A lembrança de uma noite afora trafegando no presente, abraçado no passado, conhecendo o futuro a cada segundo. O tempo ainda está sob a minha custódia, mas não mais a culpa da vida que passa.

Como é para vocês lembrar uma sensação? E pergunto ainda, lembrar como você sentia as coisas nos tempos que passaram? Sentir como se sentia. Isto é um paradoxo. E o tempo me olha como eu gosto: com humor.
Parei de xavecar o tempo. Mas é interessante ve-lo olhando para mim sem face, só com sabores que colorem os momentos que se encabidam nos armários do pensar que abrem e fecham as portas de acordo com quem os acessa. Este acúmulo é parte das eternas reconstruções, do nosso instinto de fazer tudo novo de novo.

Todos cantando na sala da república. A gente invadindo a pista do répiauer da fau. Meu pai tocando violão com a gente em volta. O beijo na praça vazia. Fazer piada do povo de sobrenome. Fugir sozinho pra praia de Escort. Compor uma música que fala tudo o que eu não tinha coragem. Ver o Milton no palco. Passear na rua vazia, jogando conversa ao vento. Comer lanche no Trem Bão. Chorar no Toy Story 3. Saber da vida dos meus bisavós. Entrar no Parque do Piqueri e descobrir a própria origem. O carinho da minha mãe, o sorriso da minha irmã. Passear no parque do flamengo, segunda de manhã. Tirar sarro do pudor do Edu. Minha primeira poesia. O lanche natural da Tina. Cinema Paradiso. Sou máquina mas tenho coração. Desenvolva.

A mulher que eu amo escreveu hoje uma das coisas mais lindas para alguém que ela já não mais pode sentir: “agora, contudo, você é o amor que eu tenho por você.”

Ralhei comigo mesmo sobre a falta, sobre a omissão de gente que a gente quer aqui com a gente, mas essa frase consumiu qualquer coisa ruim que havia dentro de mim.

A gente é do tamanho do nosso amor.

Etiquetado , , , ,

Domingo a noite

A confiança anda tão vaga que eu nem consigo escrever a palavra solidão. É difícil admitir, como se tivesse acontecido uma grave acidente de percurso e a vida tivesse enguiçado em um momento que não finaliza nem começa. O instante esquecível em que cá estava, enrolado no cobertor, com a tv ligada, esperando algo acontecer. Ninguém liga, o grito é rouco, a geladeira murmura, o relógio trabalha.
Estou vivendo este exílio forçado do mundo: há algo que ele quer me sublinhar com este momento. Ok, sempre há como se aprender com a situação, mas o telefone bem que podia tocar, não vou esconder essa ansiedade.
E todos estão resolvendo seus intrínsecos problemas e o meu talvez seja cuidar do meu, fator do qual abstenho com pudor e sem moral, doente. Me escondo do problema e as pessoas se escondem de mim, simples assim.
E quem comanda essa ciranda? Há algo encravado em mim tão profundamente que já faz parte. Um erro que se transfigura em linguagem. Espero que o meu violão me diga mais coisas que este texto em desespero.

E espero que eu possa dizer muito mais ois, e fugir dessa roda viva com toda minha face plena, vivendo o tempo em seu próprio acontecer. Vamos manter os olhos lúcidos!

Gravidade

Post escrito no domingo de páscoa.

Hoje não precisei criar novas frases, pois meu dia trafegou exatamente por onde os versos desse poema do Vinícius passaram.

Obrigado a todos que me fazem feliz!

Poema de Natal
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Etiquetado , , , , , , ,

recado

Admiro a postura dos grandes homens, de serena impavidez. São homens humildes, claros, cortezes. Fazem as entradas e as saídas, se divertem e divertem os outros sem perder a nobreza, que remete um tempo de sensibilidade.

Este tempo de sentir talvez seja um momento calado, desses períodos em que se matura a obra, para depois trazer ao outro essa ligeira paz. E essa grande obra é a própria vida.

Queria que as pessoas com quem convivo entendessem a grande diferença entre estar e permanecer, somente. Vou pedir ao Darumã!

No mais, continuo amando todos vocês (ainda que pouca gente ande ligando pra tomar uma cerveja gelada, mas, enfim!), na real.

Etiquetado , , , , , , ,
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.